Livre-arbítrio X Vontade de Deus (parte 3)

Há duas teorias antagônicas, uma propugnada por muitos religiosos, outra pelos adeptos do ateísmo. A primeira acredita que Deus traça destinos e influencia tanto as vidas das criaturas que não haveria livre-arbítrio. Nesta teoria, as criaturas são marionetes de Deus, que apenas “acham” que podem escolher suas ações, quando na verdade estas são sempre causadas pelo Todo-Poderoso. Se somos controlados por Deus, que é infinitamente bom e superior, teremos uma vida perfeita. Há, nesta teoria, uma harmonia sublime no Universo.

A segunda teoria acredita que Deus não existe, e portanto o que reina são as vontades humanas. Neste teoria, não há uma força desconhecida que regeria os destinos do mundo; nada fica na “dependência” de uma vontade superior, tudo acontece em função das vontades humanas que se entrechocam e ponto final. Predomina, nesta teoria, o Caos dos acontecimentos.

Se o nosso ganhador da mega-sena é adepto da primeira teoria, sabe que ganhou porque Deus quis. Se for adepto da segunda, ganhou porque teve muita sorte. Da mesma forma, se eu acreditasse na primeira, acreditaria que encontrei meu amigo na praia da Enseada porque Deus assim desejou; se eu acreditasse na segunda, teria tido uma baita sorte.

No entanto, estou propondo uma terceira teoria, que mescle tanto a Vontade de Deus como o Livre-arbítrio dos homens. Por quê? Porque parece não fazer sentido que Deus não exista, pois as coicidências inexplicáveis da vida acabam por nos conduzir a idéia de uma força superior. Da mesma forma, parece não fazer sentido que Deus nos controle totalmente (senão, para que teria nos criado, a princípio? para brincar de marionetes?).

O ateísmo peca por desconsiderar uma força natural diferente daquelas já conhecidas. A outra peca por desconsiderar por completo a autonomia das criaturas. Uma é só o homem. Outra é só Deus.

Quero mesclar as duas teorias! Vamos ver como vai ficar:

Teoria do Livre-arbítrio Relativo dos Homens

Deus restringe o livre-arbítrio das criaturas em alguma medida, mas não de todo. Temos, desta forma, uma autonomia relativa. Deus nos dá uma margem para que possamos escolher nossas ações, anulando aquelas que “atrapalham” a sua Vontade, e deixando passar aquelas que não atrapalham a sua Vontade. Assim, temos uma harmonia constante no Universo, por mais que tenhamos nós alguma autonomia (porque, se de um lado somos variáveis que podem gerar ações desarmônicas, de outro há Deus que corrige tais desarmonias). A forma como Deus anula as vontades que não podem fazer parte do Universo é um grande mistério, mas acho que há uma gradação: quanto pior a vontade de um indivíduo, no sentido de causar um desequilíbrio grande no todo, maior será a força contrária, vinda de Deus, para anulá-la.

Por exemplo: o indivíduo, de carro, quer passar pela ponte que está prestes a ruir. Mas a Vontade de Deus é a de que ele não morra. Por mais que o motorista tente passar por lá, não conseguirá. De alguma forma, vai ser impedido. De início, uma simples intuição, “faça o outro caminho, vai ser melhor pra você”. O motorista pode optar por ignorar o aviso mental que insistentemente lhe é soprado aos ouvidos – por um colaborador espiritual, que compreende melhor a Vontade de Deus (aqui, entra o Espiritismo, mais a frente falaremos dele). Decide por ligar o som e sintoniza na rádio, cujo programa é um noticiário sobre os estragos das chuvas e a fragilidade das construções humanas (coincidência inexplicável – uma “improbabilidade” que confirma a atuação de uma Vontade Maior). Revoltado, muda de sintonia e é anunciada uma propaganda do McDonald’s. Ele pensa que seria uma boa idéia passar no McDonald’s para comer um sanduíche, mas para ir até lá deveria pegar um outro caminho e, por alguns segundos, pensa em desistir de passar pela ponte. Entretanto, lembra, revoltado e curioso, que hoje tudo parece convergir para ele não passar na ponte, e decide, só para testar “isso que eles chama de Deus”,  que vai passar lá só de raiva. Deus, tranqüilo lá em cima, deve pensar “Coitado, acha que pode me vencer”. Segundos após, o motor do carro queima inexplicavelmente, e finalmente o motorista fica impedido de realizar o seu intento.

Neste caso, estávamos considerando que a Vontade de Deus é a de que ele não morra. Ao mesmo tempo, estávamos considerando que a Vontade de Deus era a de que a ponte quebrasse.  Vocês podem perguntar por que Deus quereria que a ponte quebrasse, se é Todo Amor, mas isso é outra história (podemos, rapidamente, refletir que um amor sublime demais é, muitas vezes, incompreendido pelos homens, e que às vezes a dor e a morte vem como benefícios gigantescos para as almas em evolução, tanto as que vão como as que ficam).

Deste modo, é como se a Vontade de Deus não fosse uma só e pronta, ela está aberta a certas mudanças, a depender das escolhas das criaturas. Por que se Deus agisse de forma incisiva, sem considerar uma margem de ação para as criaturas, o homem já no início decidiria que não passaria pela ponte, e ponto final. Deus deu uma margem grande de escolhas para o homem, que tentou “testar” o acaso e foi por ele vencido. Mas, se continuássemos a história e se o homem, agora revoltadíssimo e louco, decidisse ir a pé até a ponte para suicidar-se, no setindo de continuar testando a Vontade de Deus, muito provavelmente Deus deixaria que ele morresse, para que aprendesse, no futuro, com seus próprios erros.

Ou seja: Deus leva em conta nossas escolhas, por mais que ajamos de modo idiota e infeliz. É como se fosse num tabuleiro de xadrez, onde nós jogamos de um lado e Deus de outro. Ele deixa que movimentemos as peças da maneira como desejemos, e quando é sua vez joga “para perder”, para facilitar a nossa vitória. Por mais que joguemos como um idiota, Deus jogará de modo ainda mais idiota, porque quer que descubramos, por nós mesmos, formas de comer algumas peças, de dar cheques… No nosso exemplo, houve essa gradação: o homem primeiro foi alertado pelo pensamento, mas decidiu continuar a caminho da ponte, ligando o rádio para esquecer a preocupação (Deus deu a rainha para ele comer e o imbecil mexeu o cavalo na outra ponta). Depois Deus mandou avisos subliminares pelo rádio, mas ainda sim o bobão quis continuar no mesmo caminho  (Deus abriu a região do Rei para o homem dar um cheque com o cavalo que havia mexido na jogada anterior, mas o idiota preferiu mexer com um peão na outra ponta). Daí Deus decidiu por queimar o motor do moço, que enfim não pode fazer o que queria (Deus colocou o Rei em posição ridícula, e o homem pode facilmente ver que, com o cavalo e o peão, conseguiria dar um cheque na peça, e o fez). Ele poderia, como dissemos, ir a pé até a ponte (o idiota poderia, ao invés do cheque, dar a rainha de presente para um peão de Deus, só para testá-lo) e provavelmente Deus deixaria que ele morresse (Deus comeria a rainha com o peão), para aprender a valorizar mais a oportunidade da reencarnação, da família, vivendo só numa colônia espiritual – ou num local aterrador do Umbral (ele jogaria sem rainha, para ver o tanto que é ruim).

Percebam que essa teoria só é útil, entretanto, se conseguirmos dar uma definição satisfatória para “Vontade de Deus”. E tudo nos leva a crer que esta está diretamente relacionada com a felicidade das criaturas. Deus, na minha visão, parece conspirar a nosso favor. Então, Deus dá uma margem às nossas escolhas, sendo esta margem relativa ao grau de felicidade que tal ato proporcionará a nós próprios. Aquilo que vai realmente nos trazer felicidade, Deus deixa de boa (e ainda movimenta forças para nos ajudar). Aquilo que alegra mais ou menos ou desalegra um pouco, Deus ainda deixa. Mas aquilo que vai nos trazer bastante infelicidade, Deus faz de tudo para impedir – muito embora, se persistimos naquilo, Deus deixa, para que no fim ele acabe aprendendo por conta própria.

Isso considerando o livre-arbítrio de fazer o que quiser com a gente próprio. Porque, quando se trata de fazer o que quiser com o outro, a nossa margem é menor: se queremos assassinar tal pessoa e é da Vontade de Deus que ela não morra desta forma, podemos fazer de tudo para tentar matar que não conseguiremos (alguma coisa vai sair errada). E como na maioria das vezes nossas ações influenciam os outros, sempre temos nosso livre-arbítrio cassado, num ou noutro ponto, sem percebermos. Porque, se chegarmos a conclusão de que podemos fazer tudo, voltaremos a primeira teoria do ateísmo, que desconsidera haver uma harmonia sublime no Todo. Para que haja tal harmonia, é imprescindível uma força superior que coordene o todo, por mais que os componentes deste todo, diariamente, ajam no sentido de criar desarmonias.

Esquematicamente, ficaria assim:

Os homens são as bolinhas azuis, e as setas pretas as suas opções (o seu livre-arbítrio). Algumas delas, se escolhidas, serão automaticamente anuladas por uma força contrária, as setas vermelhas, cujo motor é Deus.

Se consideramos os bons espíritos como ajudantes de Deus, que compreendem mais ou menos a Sua Vontade, ficaria assim:

As bolinhas laranjas são os espíritos do bem, que estão prontos para agirem caso os homens optem pelo caminho errado. Como compreendem a Vontade de Deus, é como se estivessem agindo movidos pelo próprio Deus, motivo pelo qual há uma seta vermelha saindo de Deus e indo até eles próprios. Entretanto, como não são perfeitos, não compreendem totalmente a Vontade de Deus, e por isso algumas setas vermelhas pontilhadas saem de Deus até os próprios homens, como a representar a força contrária, caso ajam em desconformidade com sua Vontade (naquilo que os bons espíritos não perceberam).

Bom, de início, esta é a teoria. Tentarei aprofundá-la e repará-la no que ela estiver errada (vocês, leitores, me ajudem).

A teoria explica algumas coisas, mas ainda falta muita coisa a ser considerada, e alguns pontos espíritas a serem esclarecidos.

Continua no próximo post…

Anúncios

Sobre João

Olá, amigo do outro lado da tela.
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s