José e seus chicletes

José e seus chicletes

José amava mascar chiclete. Todos os dias, depois da escola, José passava na padaria do Alfredo e comprava chiclete. Mas não comprava de montão, porque não tinha dinheiro. Comprava um por dia, só. Isso quando tinha moedinha. Se não, pedia pro Alfredo fazer fiado.

— ô, seu Alfredo, faz fiado.

— Fiado só amanhã, menino.

— o senhor conhece minha mãe, sabe onde eu moro, faz fiado?

— Você vai é acabar com seus dentes, menino! Pega logo o chiclete.

E José escolhia, de olhões abertos de alegria, um dos chicletes da padaria.

José gostava do seu Alfredo. Era um homem com cara de bravo. Gordo, mas corpulento. Devia ter uns 50 anos já. Apesar da cara, gostava de criança. Só não sabia os nomes de ninguém. E nem fazia questão de saber. Chama só assim “menino”, “menina”. Ralhava com o José quase sempre, mas acabava fazendo fiado; não entendia o porquê do menino mascar chiclete todo dia, mas também não perguntava. Coisa de criança, pensava. E não parava pra refletir mais.

Na verdade, nem mesmo o José saberia explicar essa paixão que ele tinha por chicletes. Adorava o gostinho do recheio dos babalus de uva, descendo pela garganta. Momento único, rápido, de uns quarenta segundos, mais ou menos (já havia cronometrado na cabeça um dia, mas ele não era bom de números). Depois, a goma que ele gostava de amassar nos dentes o dia todo. Chiclete de tuti-fruti, de menta, de hortelã (os dois muito parecidos, mas José sabia distinguir os gostos), de morango, de melancia. Pirulito com chiclete, balinha com chiclete. Chiclete grande, pequeno, em forma de bola. Colorido, branco. Apimentado. Azedo. Gostava de todos! A mãe do menino ralhava com ele:

— Tira o chiclete da boca, Zé, fica com esse troço o dia todo! Vai dá bichim na boca docê, vai ficar com os dente feio e amarelo!

A mãe do José era uma senhora muito simplória. Lavava a roupa dos outros e ganhava uns trocados. Moravam numa cidade muito pequena, e aqueles mais abonados ou preguiçosos mandavam as roupas para o tanque da Jandira. Ela passava o dia inteiro lavando roupa. Jandira brigava com o menino, mas o garoto a despistava e ficava por isso mesmo. Uma mãe mais enérgica não deixaria os dentes do filho assim. Mas tinha de lavar muita roupa porque era o dinheirinho dela que sustentaria a boca do filho.

Dos filhos, aliás. José tinha muitos irmãos. Não sabia ao certo quantos, porque era ruim de números. Uns dois tinham ido para o Maranhão, outro tinha morrido ainda bebê. E vários moravam na casa. Uns estudavam, e as meninas mais velhas ajudavam a mãe a lavar roupa.

José era menino pobre, ele sabia disso. Às vezes pulava o muro da escola e ia pedir moedinha no centro. Pegava ônibus, passava debaixo da catraca, e descia num dos bairros chiques da cidade. Separava uma moedinha pro chiclete e o resto dava pra mãe. A mãe enchia os olhos de lágrimas, pegava as moedinhas, e depois ralhava, dizendo que o garoto tinha de estudar para ser alguém na vida. O menino despistava – não agüentava ver a mãe com água nos olhos.

A vida dele era difícil. Talvez fosse por isso que José mascava chicletes. De longe, ficava parecendo um menino que não quer nada com nada. Parece que quem masca chicletes ganha um ar de indiferença com as coisas da vida.

Era isso que o menino José queria.

Despistar a dor, e o olhar de pena dos outros.

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Sobre João

Olá, amigo do outro lado da tela.
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