Engraçado existirem coisas inexplicáveis através de nossa linguagem. A fé é uma delas. Acreditar em algo que transcende a própria natureza humana. Em arroubos de fé genuína, se é possível perceber, com um sentido que não é propriamente nenhum dos cinco conhecidos, a existência de algo que nos é maior e nos ama profundamente.

Já tiveram alguma experiência assim?

Eu tive algumas poucas, associadas não a Deus, como o entendemos, mas a uma força de mãe (e não de pai) que vinha do alto (pelo menos, parecia vir acima de minha cabeça) que logo associei a figura de Maria, mãe de Jesus. É uma sensação deliciosa, extraordinária, que parece nos preencher, como a dizer “Meu filho querido, eu lhe conheço, sei de todas as suas dificuldades, mas receba o meu amor e a minha fé em ti, em tua capacidade de ser feliz, de amar e fazer o bem”. E choro feito uma criança.

Já quero deixar bem claro que pouquíssimas vezes isso aconteceu comigo. Meus pensamentos e ações cotidianas são sofríveis, de maneira geral. Muita vaidade, impaciência, pensamentos de sexo, poder, sensação de que tenho importância, descuido com as palavras… Posso contar nos dedos as vezes em que estava legitimamente embuído de fé.

Engraçado, porque a fé é vista como inimiga da razão. E eu detesto ser irracional. A irracionalidade me lembra ignorância e brutalidade. Quanto mais racional e lúcido um ser humano, melhor. E a fé, curiosíssimo!, nos possibilita exatamente sermos mais racionais, mais inteligentes e sensíveis! A fé genuína é um momento de “superracionalidade”. Parece que as coisas nunca foram tão claras. É uma superlucidez. Entendemos que, de fato, somos pequeniníssimos. Minúsculos. Entendemos, de fato, que há algo muito maior que nos conduz a todos, como um bom pai-mãe guiando crianças inconsequentes. Nossa capacidade de “ser amado” aumenta muito.

Explico: temos um certo nível em capacidade de amar, e temos também um certo nível em capacidade de ser amado. Os mais durões não admitem poderem ser amados. Alguns intelectuais também não. Ser amado requer postura passiva e humildade, em se reconhecer pequeno, digno portanto do amor que se ganha. É parar de achar que conseguimos alimentar a nós próprios, e deixar que o outro nos complete de alguma forma. Em arroubos de fé, percebemos melhor o amor que vem de seres mais evoluídos que nós. Ampliamos a nossa capacidade de “ser amado”, porque renunciamos a ilusão da auto-suficiência e permitimos ver (sem os olhos) aquilo que, parece, sempre foi muito claro: o amor do Alto.

Paradoxalmente, é preocupante perceber que existem arroubos de fé completamente irracionais, no sentido de o sujeito acreditar-se digno e amado por uma entidade superior por estar cometendo alguma atrocidade: explodir-se em bombas, por exemplo. É a história de uma mentira, se contada várias vezes, passa a ser verdade, até mesmo para o inventor da mentira. E toda mentira nasce de algum egoísmo do homem. De algum processo onde faltou o “Não faça aos outros o que não gostaria que fizesse contigo”. A partir desse processo falho, nasce a mentira: “Para sermos salvos, devemos matar aqueles que não pertencem ao nosso círculo de crença; somos melhores do que eles e temos o dever de matá-los”. A vontade íntima do homem é essa, a de ser superior. Mas o homem não diz que a vontade vem dele. Não quer reconhecer seu egoísmo, sua prepotência. Diz que é a vontade de Alá. E se iludiu tanto em sua vaidade que ele próprio acha que vem de Alá. E quando está ali, explodindo o próprio corpo, crê que Alá o está considerando um filho querido.

Não é deste tipo de fé que estou falando. A fé que falo nos deixa em clima tão pacífico que somos capazes de amar a menor das moscas que atravesse o ar na nossa frente. É a sensação de que estamos recebendo amparo, cuidado e carinho de algo infinito, e nos dá uma propulsão para podermos, na medida minúscula que nos é própria, fazer o mesmo também para com os outros. Essa é a fé legítima, na minha opinião.

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Sobre João

Olá, amigo do outro lado da tela.
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