Sobre a massa psíquica cinzenta das tardes de fim-de-semana

Sabe aquela sensação de tédio total? De não ter nada o que fazer? Pois então. Eu estou exatamente assim, agora. Parece existir uma força exterior invisível que nos impele à preguiça e tudo fica muito monótono. E então eu comecei a refletir sobre esse estado psíquico que todas as pessoas atravessam, em geral nos fins de semana.

Dizemos que não há nada o que fazer. Mentira. Há um monte de coisa a ser feita. O fato é que nada parece nos atrair muito, tudo parece muito distante e trabalhoso. Poderíamos adiantar alguma coisa da escola, ouvir alguma nova banda, resolver alguns problemas pendentes. Visitar alguém, conversar com alguém, aguar as plantas, há tanta coisa! Mas nada nos apetece. Melhor pensar em outra coisa. O que? Não sei… (e é cansativo ficar pensando muito também…)

Daí eu resolvi escrever sobre esse estado psíquico. Digo estado psíquico porque o que está do lado de fora da gente não muda muito, as coisas estão ali. O que muda é a nossa disposição de dentro – indisposição neste caso. Mas eu fiquei a pensar: há tristeza e sofrimento no mundo! Pensei nisso porque depois do almoço fui tomar sorvete com minha mãe, e um monte de meninos de rua, mais novos que eu, estavam ali sentados na rua em frente a lanchonete. Eu fiquei olhando para eles, muitos cabeludos, sujos. Eu estava dentro da sorveteria chique, sabores finos, quatro reais a bola. Eles lá, comendo alguma sobra do restaurante em frente. E fiquei a pensar: “Um deles poderia estar ali onde eu estou. E eu poderia ser um deles. Só que o acaso não quis assim…”

E estava assim a refletir quando um dos meninos aproximou-se da nossa mesa e disse à minha mãe “Tia, compra um sorvete pra mim?” Eu olhei para o menino, ele olhou para mim e depois voltou a olhar para a minha mãe, que negou o pedido com um “Hoje não”. Ele foi embora. Eu falei a minha mãe sobre a minha reflexão e ela concordou comigo, mas a oportunidade de fazer alguma coisa já havia passado…

Cinco minutos depois, a oportunidade voltou. Outro menino, pedindo (agora diretamente a mim), uma bola de sorvete. Devia ter uns 14 ou 15 anos. Olhei em seus olhos e percebi como era jovem e simples, apesar da cabeleira suja. E havia no seu olhar uma carência que não era de comida. Olhei para a minha mãe, a dona do dinheiro. Eu disse: “Quer de que? Tem chocolate, de frutas…”. Ele olhava para mim com um olhar que misturava também uma ligeira desconfiança. “Tem de leite condensado?”. Eu confirmei com a cabeça e fui lá comprar.

Tinha de baunilha, só, mas passava. A moça disse: “Esse sorvete é pra ‘eles’? Não fica comprando pra ‘eles’ não, porque eles não saem daqui!”. Eu não disse nada, mas tive vontade de responder: “E como é que fica aqueles olhos na minha frente?”. Dividi a bola em duas, porque vi que outro menino tinha chegado. Dei pra eles, que agradeceram e foram embora.

Dois minutos depois, outro menino veio pedir sorvete pro homem que ia embora deixando quase uma bola inteira no copinho. Ele deu pro menino, que voltou feliz para o seu grupo.

A moça tinha razão. Os danados não saíam lá de perto.

Mas era sorvete, num era? Quem não gosta de sorvete? Eu pediria, se esivesse com fome e meus amigos de rua tivessem conseguido. Ia querer também. Então deixa eles pedirem.

Eu fiquei a pensar em como há no meu bairro lanchonetes chiques, prédios bons, gente de classe média, famílias estruturadas. É tudo muito bonitinho, até aparecer os maltrapilhos de rua. Inicialmente, parece a poluição visual de nossas vistas. Não deveriam estar ali. As pessoas que passam não sabem o que fazer, se afastam e não dão esmolas. Daí eu fui percebendo que, no fundo, não é que somos egoístas. É que tudo ia tão bem e organizado na nossa vida, por que é que tem de existir esses meninos, esses mendigos, essas misérias?

Mas há muito mais de onde esses vieram. Esses meninos estão ali, importunando os donos das lojas, afastando pedestres para o outro lado da rua, sujando a paisagem, mas estão – sem saber – trazendo a mensagem que muita gente deixou de escutar: “Há muito sofrimento no mundo. Há muita coisa errada na cidade. Somos muitos assim, sem casa, sem comida, sem roupa, sem escola”. Então eles estão ali para incomodar sim, mas para reajustar a nossa consciência que vinha ali tranquila, preguiçosa.

Estávamos monótonos, inertes na tarde de sábado, como se não houvesse nada no mundo a fazer…

Há muita coisa a fazer. Muita mesmo.

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Então eu cheguei a conclusão de que a pior coisa no mundo todo, que faz ele ter tanta coisa errada e feia, não é a ação dos maus, dos verdadeiramente hipócritas e egoístas, porque eles são minoria. A pior coisa é essa preguiça, esse tédio, que afligem um número gigantesco de pessoas que até tem o coração bom, mas numa latência e adormecimento criminosos. É isso que ferra o mundo.

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Sobre João

Olá, amigo do outro lado da tela.
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Uma resposta para Sobre a massa psíquica cinzenta das tardes de fim-de-semana

  1. Jemima Pompeu disse:

    Olá João! Estava pesquisando sobre comportamento humano e encontrei seu blog. Meu nome é Jemima, moro na capital de São Paulo e sou gêmea bivitelina.Criei um blog com o propósito principal de reunir histórias de gêmeos – ou contadas por eles mesmos ou por seus familiares (mães, pais, cônjuges, filhos etc). Vale ressaltar que todos os textos são postados com os devidos créditos. Se puder divulgar, fico muito grata.

    Abs, Jemima Pompeu
    e-mail: jemimapompeu@gmail.com
    http://www.vizinhosdeutero.blogspot.com
    Twitter: @vizinhosdeutero

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