A influência que exercem e que exercemos

Eu sou o João, um só, um só caráter, personalidade. Entretanto, em contato com as diversas pessoas do nosso dia-a-dia, sou um pouquinho diferente com cada uma delas. Com algumas pessoas, parece que sou mais criança que o habitual; com outras, mais adulto. Minhas vaidades se assumem, quando em contato com determinadas pessoas; com outras, sou mais livre. Sou culto, se próximo a algumas pessoas; ignorante, perto de outras. Simples, diante de uns; complexo, diante de outros.

Isso me leva a crer que, quando relacionamos com as pessoas, elas exercem em nós, sem perceberem, uma espécie de força invisível que nos propulsiona a comportarmo-nos de determinada maneira. Nós, igualmente, exercemos sobre as pessoas essa mesma força.

Tudo acontece naturalmente. Não estou falando sobre os casos em que nós, conscientemente, fazemos ser um “eu” diferente do normal. Por exemplo, quando uma mulher quer atrair um homem que goste para si, ela faz uma espécie de “jogo”, fingindo ser quem não se é. Isso é uma ação deliberada, partindo dela, modificando-lhe a maneira de comportar-se, com o fim de atingir o seu objetivo: pegar o cara.

Estou falando dessa transformação imperceptível, natural, que passamos quando em contato com pessoa X ou pessoa Y. Conscientemente, não fazemos nada. Por isso, até, disse que é uma força externa que nos modifica, sutilmente, uma força acionada pelo outro, que também não sabe o que está fazendo.

Acho que tudo isso acontece em função daquela característica tão humana, tão natural, da adaptabilidade. De certa forma, nos amoldamos quando em contato com as pessoas. Para “encaixar” um no outro melhor.

Por exemplo, tenho uma amiga que, quando estou conversando com ela, parece que me torno mais doce, mais suave. Ela, exercendo essa força irresistível, sem perceber, me possibilita ser esse João mais carinhoso que o habitual. Em contato com outras pessoas, sou mais frio, sem muito brilho, como se elas exercessem essa força.

Nunca, o encaixe é perfeito (na teoria, o encaixe perfeito seria o encontro de almas gêmeas/irmãs). Sempre haverá um desgastezinho, entre duas pessoas. Por vezes, não encaixa de jeito nenhum! Outras, encaixa mais-ou-menos. E, sem querer, parece que nós pegamos um pouquinho do gosto e do cheiro do molde do outro. Quando em contato com gente mais doce, tendemos a ser também mais açucaradozinhos. Em contato com gente mais obcena, soltamos um pouco de nossas próprias obcenidades contidas. Com pessoas mais nobres e espiritualizadas, tendemos a respeitar mais a Deus, a agir com mais altruísmo.

Esse assunto é tão interessante, e tem tantos desdobramentos! Poderíamos ficar aqui, refletindo até o amanhecer. Mas, para encerrar esse texto, aponto apenas dois dos inúmeros possíveis desdobramentos desse texto:

1) A psicologia profunda, por exemplo, ratifica estas minhas palavras, e ainda acrescenta que não só indivíduos exercem influência sobre o comportamento de indivíduos, mas também coletividades exercem influência sobre indivíduos, de modo que, para os revolucionários, os vanguardistas de seu tempo (no mundo das ciências, das artes, etc.), a missão que carregam é árdua, porque travam um embate diário contra as pessoas e outro, ainda maior, contra uma sombra coletiva representativa da opinião média das pessoas, tal como um sujeito rude, sarcástico, bastante impositivo e convincente em suas idéias preconceituosas. Por isso as cenas tão ridículas, para nós que estamos no século XXI, mas que eram naturais e aceitáveis a época em que ocorreram, como aquela em que Freud foi vaiado ruidosamente, pelos próprios professores da faculdade onde lecionava, por explanar sobre os seus estudos da sexualidade infantil, ou aquela outra cena, inaceitável, dos cristãos do primeiro século, sendo trucidados nas arenas romanas, sob aplauso e risos da imensa platéia que os acompanhava.

2) Outro desdobramento interessante é a dos santos. Vou colar aqui o texto de Eugênia nesse sentido. “[…] levamos os que não estão no nosso patamar de maturidade psicológica e moral a agirem em esfera mais alta de consciência e conduta para seu próprio padrão, demonstrando virtudes que, nas relações com terceiros, não denotam normalmente. Destarte, numa situação extrema, almas santas costumam inspirar atos de bravura e altruísmo em criminosos, embora isso só possa acontecer pontualmente, porque, se for forçado o convívio entre estes seres que compõem extremos opostos do espectro da dignidade humana, a psique do criminoso, em efeito contrarreativo compensatório aos momentos de nobreza que lhe não são naturais, tenderá a agir em padrão ainda mais baixo que o que lhe é peculiar, logo após o ato de grandeza, prejudicando o próprio promotor de seu crescimento, o tal ser luminoso com quem está convivendo – a hagiografia é prenhe de exemplos do gênero, nos dois sentidos”.

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Sobre João

Olá, amigo do outro lado da tela.
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3 respostas para A influência que exercem e que exercemos

  1. gmdp disse:

    João,
    Há quanto não nos falamos, hein??
    Gostei muito desse texto. Já tinha reparado como ficamos diferente depois da convivência com certas pessoas, como ficamos parecendo elas. Mas não foi nada que me fizesse pensar tão a fundo.

    Ontem foi seu aniversário, né?
    Bem, não tive oportunidade de lhe dar os parabéns, mas é pra isso que tô aqui hoje. =D
    Desejo muuuuitas felicidades pra vc, muita paz, saúde, sucesso e muita luz. 🙂
    Abraço,
    Fique com Deus.

  2. Chrystian disse:

    Esse segundo ponto me lembra uma cena do filme sobre o Chico Xavier em que o pai dele o leva até um prostibulo e ele coloca todo mundo pra rezar.

    Mas, sobre a influência do outro sobre nós e vice-versa, existe uma psicologia que discorre muito sobre isso. Não me lembro o nome dela no momento. Ela diz que estamos constantemente em construção e que somos fruto das nossas relações.

    Pra mim, isso vai um pouco mais além. Acredito que existe uma conexão que não vemos entre cada relação. A física quântica dá uma luz sobre isso. O mundo, só por eu estar aqui, já é totalmente diferente.

  3. João disse:

    hehehehe, aquela cena é engraçada. 🙂

    A Física Quântica é fudida, heim! Eu acho tão maravilhosa essa conexão entre essas áreas do saber aparentemente distantes, como “física” e “psicologia”.

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