Carta de Amor aos Vestibulandos

Que momento difícil é esse, meu Deus, o da preparação para o vestibular!

Esta carta é redigida por um recente ex-aluno, dirigida a todos os estudantes de ensino médio e cursinhos pré-vestibulares. Apesar de ser de minha autoria, creio seja inspirada pela fé em Maria Santíssima, do qual somos todos filhos adotivos…

A primeira verdade, necessária e bela, que devo dizer, é: muitas almas sensíveis compreendem exatamente o que estão passando. Espíritos dotados de um imenso amor à juventude, amor despretensioso, puro, tal qual corações maternos. Desveladamente, acompanham seus passos, assimilam suas dúvidas, angústias, medos, surtos, e fazem um esforço tremendo para lhes ajudarem, pela inspiração e transmissão de bons fluidos, silenciosamente, despercebidamente…

Não pensem que este cortejo de “anjos” (na verdade apenas homens e mulheres mais experientes na arte de amar) detém apenas um conhecimento superficial sobre o que se passa com “jovenzinhos pré-vestibulandos”. Não! Apesar de movidos tão-somente pelo coração, conhecem profundamente o âmago de todos aqueles que sofrem nas salas, nos livros, em casa. Compreendem as falhas tremendas na educação formal brasileira nos dias que correm, que prejudicam não só aos menos favorecidos, matriculados em escolas públicas de baixíssima qualidade, mas também aos alunos dos colégios mais caros da cidade, que não obstante ostentarem livros de qualidade, terem professores de alto nível e infra-estrutura escolar admirável, vivem infelizes sobrecarregados com o extenso currículo e pressionados pela expectativa alheia.

Quão cruel a realidade das salas de aula dos jovens! A juventude é momento mágico na vida da criatura: descobrem-se novos caminhos, brotam novos sentimentos. O sexo vem por de dentro como uma nova e poderosíssima força! A orientação sexual é naturalmente definida – e os dramas que decorrem das orientações não-convencionais não passam despercebidos destes Espíritos que servem ao amor de Maria. Porque, como se não bastasse ser vestibulando, ainda se é gay! “Até quando”, pensam serenamente, embora entristecidos, “a humanidade vai condenar o que a natureza tem de mais belo, que é a diversidade? Até quando farão sofrer essas pobres criaturas que não querem outra coisa senão… amar?”

Como um abraço dos Céus, os Espíritos amoráveis envolvem os muros da escola. Conhecem daqueles que enfrentam dificuldades nos relacionamentos dentro da família. O uniforme escolar, o cabelo arrumado e os livros debaixo do braço não escondem, deles, o que se passa no interior do peito dos jovens. Pelos colegas e professores, o disfarce pode até funcionar, mas não para essas criaturas celestes. Porque, para eles, não existe “apenas mais um”: cada um é um ser, tão importante e complexo como qualquer outro que seja da espécie humana. Os dramas nas famílias, as doenças incuráveis, os órfãos de pai ou mãe, os desentendimentos e discordâncias, tudo é do conhecimento deles, e sentido por eles. A timidez e solidão dos vindos do interior do estado; o desgosto daqueles que não tem o corpo que gostaria; a vaidade da bela menina ou do forte rapaz que guarda consigo  grandes inseguranças em relação a si próprio, embora quase ninguém as perceba…

Não sabem vocês como eles se entristecem quando percebem os caminhos loucos, as fugas terríveis, que muitos decidem por percorrer, chafurdando no álcool anestesiante, no cigarro e até mesmo nos entorpecentes. A realidade não é fácil, de fato. O caminho é pedregoso. Mas negar as dificuldades é revoltar-se contra aquilo que a vida pode nos oferecer. E eis aqui a segunda verdade dessa carta, que por ser de amor, não pode esconder o que é racional e lógico: temos de passar por isso.

Por mais que se tente, uma mudança na concepção escolar só será possível através de um movimento que transforme a maneira de olhar a própria educação. Não todos, mas muitos setores estratégicos da sociedade devem necessariamente modificarem seus conceitos sobre educação, convergindo num movimento que consiga, progressivamente, encerrar este ciclo de sofrimento dos jovens estudantes do fim do século XX e início do século XXI, para um novo ciclo, onde a educação corresponda às expectativas do novo milênio. Os jovens vestibulandos mal arranjam tempo para resolverem suas listas de exercícios, quanto mais para se inserirem nesse movimento! Isso é outro assunto, que exigiria muito tempo, energia e força.

Não. As coisas vão mudar, mas os frutos ainda estão verdes. Muita coisa precisa ainda amadurecer, no modo de sentir e agir dos empresários, das famílias, dos diretores, dos professores, dos políticos e dos próprios estudantes também. Infelizmente, essa é a segunda verdade, por mais revoltante que possa ser. A hora é a de enfrentar o que está aí, e não o de indignar-se e partir para a luta.

Não obstante, volto a dizer: somos compreendidos. Muito mais do que imaginamos. Há uma força-tarefa do outro lado que chora e se alegra conosco. Sabe aquela menina que você se apaixonou mas não revela? Sabe aquela angústia por não saber qual curso escolher, e ver as pessoas ao redor perguntando? Sabe aquela revolta por perceber a insensibilidade de diretores e professores para com vocês? Sabe aquele tédio por ver repetidas vezes matérias que não auxiliam em nada, não respondem nada? Sabe essa inveja que vemos brotar de dentro da gente (por mais que achemos horroroso), quando algum colega, amigo nosso, é melhor que a gente em alguma coisa? E, mais tarde, a raiva por estarmos inserido nesse sistema competitivo, essa seleção rigorosa que nos coloca uns frente a frente com outros, jovens tão parecidos conosco? E sabe aquela vontade de chorar ou gritar para que tudo fosse diferente!?

Nada disso é desconhecido deles.

Ah, meus amigos, se soubéssemos disso, se realmente entedêssemos essa verdade! Iriamos chorar como crianças! Porque, realmente, se pudessem, eles nos pegariam no colo e afagariam nossos cabelos, despejando todo o imenso amor que tem para conosco. Se pudessem, tirariam todas essas pedras do caminho. Mas não podem fazer isso, e nem devem. Temos de andar por nossas próprias pernas. Entender coisas que ainda não entendemos, que se passam dentro da gente. Trabalhar nossos sentimentos. Desenvolver resignação, paciência, tolerância. Temos o que merecemos, por mais triste que possa ser.

Mas há também uma terceira verdade, digna de nota, curiosíssima, que é: muitas pessoas agem por inspiração dessa faixa de tutela de outra dimensão. Sintam, através dos amigos, as palavras de carinho; através de alguns professores, o companheirismo; através de faxineiras, funcionários, um novo olhar sobre a vida; de algum diretor ou coordenador, os pesares pela educação em crise. Ouçam alguns pais revoltados pela dor de seus filhos vestibulandos; pedagogos notáveis e políticos sérios incentivando uma nova forma de pensar. Essa comunidade celeste intui e dissemina idéias superiores através das criaturas que estão ao lado de vocês! Parem para observar um pouquinho mais a vida, e receberão mensagens – talvez não respostas, mas apenas mensagens – de carinho, de entendimento, de “siga, que já está acabando!”, e “vai dar tudo certo”.

Ah, como seria maravilhosa uma educação que correspondessem aos nossos anseios! Onde pudéssemos aprender o que gostamos, sem exigências de conteúdos descabidos dos currículos atuais! Onde tudo fosse mais colorido e alegre, a arte permitida e desejável, os sentimentos estudados e valorizados! Onde a construção de amizades e o debate de idéias estivessem necessariamente inseridos no progama escolar. Se um gosta de administrar, aprenderia tal arte coordenando a cantina do colégio. Se outro gosta de biologia por causa da vida que nasce, em todos os sentidos, poderia plantar mudas e cuidar de animais dentro do colégio! Se outro quer é mexer com arte, que pudesse pintar os muros do colégio, cantar nos recreios, atuar nas aulas de literatura!

Meu Deus, a literatura! Que pudéssemos todos ler livros de nosso gosto, que nos fazem rir e pensar, e não livros determinados por professores bigodudos de faculdades. Imagine como seria bom uma escola assim, onde é gostoso estudar, onde os estudos correspondessem à nossa energia! Por que, de que adianta estudar os problemas do Brasil, nas aulas de geografia, se a duzentos metros dali há catadores de lixo e, não muito longe, jovens miseráveis? De que adianta estudar o globo e os problemas internacionais, se há tanta coisa pra fazer na nossa cidade mesmo? Se tivéssemos uma escola melhor, voltada para a vida, para uma transformação real, como tudo seria mais atraente!

Ela está para vir, gente! Está para vir! Essas idéias explosivas como fogos de artifício estão sendo disseminadas. Nada que é realmente bem feito acontece assim, de uma hora pra outra. Eles – essas criaturas celestes – trabalham para a maturação da sociedade. Sigamos caminhando, talvez não assim felizes, mas em paz, esperançosos. Se conselho fosse bom ninguém dava, vendia, mas quero vender (gratuitamente) os meus:

1) Procure, pelo menos durante algumas horas da semana, algum momento em que você possa encontrar-se com o lado espiritual da vida, seja numa igreja católica, evangélica, centro espírita, seicho-no-ie, ou mesmo uma “religião própria” sua, mas que lhe propicie um momento oracional, de meditação ou devocional a algo, alguma coisa ou algum sentimento. Isso vai fazer com que perceba, com mais nitidez, a primeira verdade;

2) Evite sentimentos de auto-piedade, por mais que o momento seja difícil. Lembre-se de que nada acontece por acaso ou capricho: se estamos inseridos numa realidade ruim, é porque faz-se necessário passarmos por ela. Essa é a segunda verdade. Não quero com isso incentivar a inércia e resignação passiva (como o fiel que não ajuda os mendigos porque acha que Deus quis que o mendigo sofresse assim), mas quero que vejam com racionalidade, como expus anteriormente, que há coisas que realmente não podemos modificar;

3) Sejam sensíveis às inflexões de carinho das pessoas ao seu redor. Se não podemos ver e sentir com nitidez os grandiosos espíritos celetes que nos acompanham os passos, temos, por outro lado, nossos bons amigos e familiares que, humanos mesmo, carne-e-osso, imperfeitos como somos todos, muitas vezes carregam verdadeiras mensagens celestes para nós (mesmo sem o saberem). Percebam a vida, as árvores, os pássaros, o céu, o vento; as pessoas que atravessam o nosso caminho; as flores pela calçada; sintam Deus na criação. Essa é a terceira verdade, e pela qual vale a pena viver.

Fiquem em paz.

Tudo passa.

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Sobre João

Olá, amigo do outro lado da tela.
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5 respostas para Carta de Amor aos Vestibulandos

  1. gmdp disse:

    Joãão!! Jóia?
    Nossa! Sei nem o que dizer! Linda carta. Acho que era a carta que eu tava precisando receber. =]
    Sabe, é muito bom saber que tem todo esse aparato celestial nos amparando da melhor maneira possível. Muito bom mesmo!

    Abraço!

  2. Nina disse:

    Sabe João, a origem etimológica do termo Escola vem do latim “schola”, e do grego “skhole” que significava lazer, pois a busca de conhecimento na época era considerado como lazer. Espaço vital em que se praticava o ócio, não ócio sentido que lhe é próprio, mas um momento em que a discussão livre e o aprendizado como experiência era intenso. Entretanto, o detalhe fundamental desse modelo iniciático de ensino-aprendizagem estava no fato de que àquele tempo quem usufruia de tempo livre eram os grandes legisladores e seus tutelados. Ou seja, a restrição impediu a propagação. Ou a distorção do seu real significado por conveniência( o que não vem ao caso). O que é bom nisso, é saber que as boas ideias sempre estiveram por aqui, esperando talves, alcançarmos a maturação necessária à sua excução. Quem sabe o tempo não é esse? Pense nas dezenas de mentes espalhadas por aí, ou talves, bem próximas, com o mesmo ideal…
    Também não creio numa mudança estupenda, espantosa como se operam os avanços tecnológicos. Em se tratando de seres humanos, qualidade ainda precisa superar a quantidade. E se nos permitirmos à companhia afetuosa destes seres celestiais tão lindamente descrito acima, certamente será mais fácil.

    • João disse:

      Que máximo, não sabia disso não.

      É, existe uma crença errada de que escola é lugar de sofrimento, né?

      Eu acho que o tempo é esse. Eu só acho que os vestibulandos, que são os que mais sofrem com o vestibular, não devem muito pensar sobre essa mudança porque vão ficar mais estressados e precisariam dispender muito mais energia para ver alguma mudança, entende? O currículo é gigantesco, os vestibulares são concorridos, é muita coisa pra estudar, e tem de estar equilibrados para enfrentar as provas…

      A mudança tem de vir de todos os lados. Dos estudantes também, mas também dos políticos, por exemplo. O Ministério da Educação tem de exigir menos conteúdo inútil, abrir mais vagas em universidades… A mudança tem de vir dos empresários, utilizando-se de seu poder político para exigir uma transformação nas escolas, que poderiam ensinar, por exemplo, a trabalhar em grupo e a falar em público, duas qualidades que são exigidas no mercado de trabalho mas que não são ensinadas nem nas melhores escolas de ensino médio.

      Tem de vir dos pensadores da educação. Das famílias. E dos estudantes também – porque, por incrível que pareça, alguns estudantes concordam com o vestibular, com a competição, e concordam que só vale prestar vestibular se for pra fazer direito, engenharia ou medicina.

      Isso, nós estamos discutindo só o ensino médio! E enfatizando os colégios particulares! A discussão é grande também quando tratamos do ensino fundamental e educação infantil. A revolução tem de começar lá com os piquituchos. 🙂

      Mas o tempo é esse mesmo! Aliás, já está passando da hora, pra falar a verdade. Temos de mudar. Temos de pensar em como mudar. E temos de agir em prol dessa mudança.

      Eu não entendo muito, ainda, de pedagogia. O meu primeiro passo vai ser fazer esse curso, hehehe… Até quero conversar contigo depois sobre as faculdades de pedagogia no Brasil. Em 2012 eu me formo em direito e vou fazer pedagogia em seguida.

      Abraço.

  3. Chrystian disse:

    João, só discordo de você em um ponto: todo mundo diz que a mudança tem que começar com as crianças. O foco da pesquisa em educação sempre foi a criança. Mas quem forma essa criança? Pra mim, o foco deveria estar na universidade. Pois é na universidade que formamos os formadores das crianças. Se melhoramos nossos cursos de licenciatura e pedagogia, as coisas começam a melhorar. Temos que conscientizar os formadores de opinião, porque a massa sempre segue o fluxo.

    Parabéns pelo texto.
    Abraço

    • João disse:

      Acho que a educação, para revolucionar, tem de acontecer com as crianças, nas séries iniciais, porque é ali que essas criaturas maravilhosas podem ser convidadas a pensar no meio-ambiente, no respeito ao próximo, na construção da auto-estima, nas formas de mudar o mundo, na alteridade como lema de vida.

      Porque me parece que, a partir de um ponto, o ser humano assume para si muitos conceitos e, por isso, para que se façam reflexões e se eduque de verdade, o professor tem o papel difícil de “desconstruir” para depois convidar a “construção”.

      Por isso eu digo isso. A revolução acontece nas séries iniciais.

      Mas, é claro, para que isso aconteça, temos de ter professores bem preparados. 🙂
      Serão os principais agentes dessa mudança. Eu não sei como são os cursos de pedagogia pelo Brasil a fora, mas pelo que eu tenho ouvido falar, putz (me arrepio com esses cursos à distância…).

      Acho que falta, também, as pessoas perceberem a maravilha que é a educação, o saber, a escola. Falta isso. Essa consciência de que é só através da educação que o mundo vai pra frente. Falta essa consciência até mesmo na população de classe média e rica (que, em geral, vêem na educação apenas a garantia de um futuro para os seus filhos, nunca com uma visão de uma educação que possibilite a formação de “transformadores de mundo”).

      Mas não culpo os brasileiros por isso. Não culpo por eles terem dado apenas 3% de votos ao Cristóvam Buarque, que prometeu a revolução na educação. O fato é que os meninos e meninas chegam em casa com “locuções adverbiais” e “estruturas orgânicas” na cabeça, então o pai humilde diz: “Pára de aprender essas besteiras, filho, e vem me ajudar na barraca da feira”. Então, as escolas tem de possibilitar aos alunos e a comunidade enxergarem o quão a educação é fantástica.

      Isso, necessariamente, passa pela formação dos educadores, claro. 🙂

      Abraço.

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