Massa invisível de grande força

As palavras ditas pelas pessoas, nas reuniões de família, conversas de foro íntimo, nos papos de butequim, nas reportagens da mídia, nos e-mails, sites, enfim, todas as idéias lançadas a partir da recombinação destes vinte e três caracteres que são as letras do alfabeto, emitidas por seres humanos, tem um poder tão grandioso e condicionante que nem paramos para refletir a respeito.

Muitas vezes, agimos sem nos dar conta de que estamos, de certa forma, sendo impulsionados pelas idéias correntes. Quando se dissemina, pelas palavras, os conceitos de que, por exemplo, não se deve chorar quando se é menino, se cria correntes de idéias que, por serem apenas idéias, são invisíveis por natureza, mas que detém força e propulsionam os homens a agirem sob a égide dessa idéia, e passam então a maquiarem seus sentimentos, esconderem as suas fraquezas, como se isso fosse o certo a ser feito.

Da mesma forma, a idéia de que mulheres são frágeis e submissas está incutida no meio social de uma forma tão “agarrada”, por assim dizer, que mulheres e homens agem inconscientemente nesse sentido, achando de fato que elas, as mulheres, são mesmo mais frágeis – ignorando, por exemplo, a existência de núcleos matriarcais na Antiguidade, onde as mulheres tomavam decisões e seus sobrenomes estendiam-se aos filhos.

De modo que, de maneira geral, boa parte de nossas idéias e ações estão calcadas não em escolhas conscientes do que queremos, mas sim escolhas aparentemente conscientes, mas na verdade propulsionadas por essas idéias comuns disseminadas tal qual massa invisível de grande força. Na psicologia junguiana, é o que chamaríamos de “inconsciente coletivo”.

Inconsciente Coletivo, segundo o conceito de psicologia analítica criado pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, é a camada mais profunda da psique humana. Ele é constituído pelos materiais que foram herdados da humanidade. A existência do inconsciente coletivo não é derivada de experiências individuais, tal como o inconsciente pessoal, trabalhado por Freud. O inconsciente coletivo representaria o conjunto das necessidades e potencialidades reprimidas de um conjunto de indivíduos, grupos, classes ou toda a sociedade. (fonte: wikipedia)

Parece-me que, quão mais contundente é o indivíduo em relação ao inconsciente, mais ele ou ela sofrerá resistência. Quanto mais vanguardista é alguém, por defender idéias ou princípios novos, mais esse alguém sofre, no sentido de que, além de ter de lutar contra as influências que o inconsciente exerce em si próprio, de modo a ter que decidir por agir conforme a sua concepção de certo e bom (e não a do inconsciente coletivo), ele terá de enfrentar também os outros seres humanos que, percebendo a sua decisão por agir ou pensar de modo “estranho” aos padrões, tentarão fazer com que ele, o vanguardista, volte ao status quo ante.

O que quero refletir é: se o vanguardista em geral pensa e age no sentido de defender idéias que pareçam ser mais atraentes e mais propiciadoras de felicidade aos homens, por que essa reação negativa dos homens em geral aos vanguardistas de seu tempo, fulminando iniciativas nobres que poderiam melhorar e muito a vida de todos? Muitas vezes, até mesmo as pessoas mais chegadas e amigas voltam as costas aos vanguardistas, temerosas de sofrerem também pelas pauladas da ignorância.

Essa é uma reflexão para que nós evitemos a propagação, pela palavra falada ou escrita, nas rodas familiares e conversas de amigos, qualquer tipo de idéia preconceituosa, nociva e injusta às pessoas revolucionárias, sejam elas pessoas de vulto (artistas, escritores…) ou até mesmo nossos colegas mais “doidinhos”. Porque, se assim estivermos agindo, estaremos tornando infelizes pessoas que já sofrem com muita coisa, e ao mesmo tempo colaborando para que essa massa invisível de ignorância continue existindo, reprimindo “necessidades e potencialidades de um conjunto de indivíduos, grupos, classes ou toda a sociedade“, como já dito.

Para ficar mais claro as minhas idéias, e já finalizar o meu texto (que, na verdade, trata de um assunto muito mais complexo e merece, de todos nós, muitos estudos de psicologia), vou colocar um vídeo de um trecho de um filme sobre Freud, criador da psicanálise. Na cena do filme, Freud, como vanguardista de seu tempo na área científica, palestrará na Academia sobre sexualidade infantil. Vejam como o Inconsciente Coletivo o receberá.

E, depois de verem o vídeo (até 5:00 já basta), lembrem-se de que até hoje Freud é considerado um fenômeno na psicologia, enquanto que seus opositores foram relegados à poeira do tempo…

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Sobre João

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