Capítulo 1 – O Menino das Nuvens (X-MEN)

Capítulo 1 – O menino das nuvens

Já era noite, e, apesar do tempo nublado, o pequeno circo da periferia de Natal brilhava em luzes. Alguns pais traziam os filhos para assistirem o espetáculo da quarta-feira. Na entrada, escadas improvisadas caminhavam até a bilheteria, também um cômodo-carro improvisado para tal fim. Uma música tradicionalíssma, tocada por um palhaço num acordeon em ritmo alegre, animava o interior do circo. Dentro da bilheteria, havia um senhor de bigode branco, com aparência entediante, que recebia o dinheiro, dava o ingresso e resmungava quando tinha de voltar troco muito grande.

– Entrem logo, o espetáculo já está começando!

Homens passavam por entre as poucas cadeiras da platéia vendendo maçãs-do-amor e refrigerantes. Alguém um pouco mais observador notaria que estes mesmos homens é que executam malabares e brincam no trapézio. Uma corda havia sido amarrada de um ponto a outro dos postes da lona, para algum número arriscado.

Então, as luzes se apagaram e uma voz diz:

– Respeitável público! Bem-vindo ao Circo Rapadura! Desejamos a todos um ótimo espetáculo!

Não havia, na verdade, muitas pessoas naquele pequeno circo. Não era um circo de “primeira categoria”. Notava-se a sujeira no chão e o cansaço nos olhos dos artistas. No entanto, a expectativa das crianças era intensa. Afinal, as crianças possuem a capacidade de se alegrarem com o pouco da vida.

Do lado de fora, o bilheteiro entediado fechava o caixa, contando o lucro da noite.

– Tá difícil! Com essa merreca, vou ter que atrasar o pagamento dos palhaços de novo.

Olhou para o céu através do vidro transparente da bilheteria e notou grandes nuvens negras, e chuva na costa. O cheiro de mar invadia-lhe as narinas, embora já estivesse acostumado com isso.

– Estranho – murmurou, com dinheiro ainda em mãos – a previsão só disse que choveria no fim da semana. Que droga. Se for chuva braba não sei se meu circo aguenta.

Ligou o rádiozinho de pilha que colocou ao lado da cômoda de madeira e, sintonizando na rádio esportiva, voltou a baixar os olhos e contar o seu dinheiro.

Quando acometeu-lhe uma sensação de que algum estranho o observava, ele subiu os olhos para o vidro transparente que o dividia com o mundo a tempo de ver  uma mulher negra, alta, de aproximadamente uns 40 anos, com rosto largo, traços fisionômicos fortes, e um cabelo comprido de um reluzente prateado, dizer-lhe:

– Olá. Gostaria de comprar um ingresso.

– Que isso, minha filha! – disse ele, num susto. – Parece uma assombração! Eu já estou fechando o caixa.

– Cheguei um pouco atrasada, moço. Tive um… um problema no caminho.

O homem parou e, mexendo o bigode para lá e para cá, disse:

– Vá lá, então. São 5 reais.

A moça deu uma nota de 10 e, sem esperar o troco, entrou pela abertura da lona.

Lá dentro, os palhaços brincavam com alguém da platéia. As crianças riam até. A moça sentou-se mais ao fundo e observou com atenção tudo ao seu redor.

Um a um, os números iam sendo apresentados, com aplausos, risos, e gritos em coro “Oooh!” quando algo perigoso era executado.

– Senhoras e senhores, meninos e meninas! – gritava o narrador, sem microfone. – Eis agora, o nosso grande último número. Rufem os tambores. Com vocês… “O Menino das Nuvens!”

Um menino de uns 15 anos entrou no palco e, confiante, avançou para o poste onde a corda estava amarrada. Subiu numa escada e alcançou o seu topo, que ficava a uns 25 metros do chão.

– Este menino – gritava o narrador – andará pela corda, por cima de todos vocês, atravessando toda a platéia! E fará isso, senhoras e senhores, meninos e meninas, sem nenhum tipo de proteção!

Todos murmuraram “Oohh” e alguns na platéia, mais prudentes, começaram a preocupar com o garoto. A senhora de cabelos prateados sentada no fundo da platéia olhava atentamente para ele. Os tambores – na verdade, alguns tamboretes – rufavam e o menino, sem ao menos respirar fundo, começou a andar pela corda.

Todos estavam com a respiração presa e atentos. Mas o garoto era bom. Andava pela corda suavemente, e executava tão bem seus passos, que a corda mal parecia se mexer. Na verdade, ele parecia flutuar pela corda ao invés de pisar nela propriamente.

– O professor tinha razão… – murmurou a senhora negra, esboçando um pequeno sorriso. Mas ele instantaneamente desapareceu quando a corda pareceu remexer-se muito e o menino, desequilibrado, movimentar seus braços abertos de um lado para outro.

A platéia ficou apreensiva e exteriorizou tal sentimento com um “Ahhh” a meia-voz. As pessoas mais diretamente abaixo dele se afastaram rapidamente, mas parecia não ser mais necessário: ele retomara o equilíbrio de maneira supreendentemente rápida, e continuava a caminhar sob aplauso da platéia, agora aliviada.

No meio do caminho, parou de caminhar e pareceu ensaiar um mortal. As pessoas pensaram se realmente era isso que ele queira fazer, mas antes de realizarem maiores elucubrações, o menino saltou, deu uma cambalhota no ar e parou em cima da corda, equilibrando-se novamente com os braços abertos.

A platéia, surpresa, aplaudiu com entusiasmo.

O menino continuou a caminhar e, faltando um quarto para acabar, o garoto começou a pular até chegar no fim.

Quando terminou, todos aplaudiram estonteantemente, assoviando, e de pé.

– Este é o incrível “Menino das nuvens”! – gritou o apresentador.

O garoto agradeceu, desceu as escadas e, mecanicamente, voltou por onde havia saído.

A moça levantou-se e, discretamente, desceu para os camarins do circo.

*    *    *

 

Anúncios

Sobre João

Olá, amigo do outro lado da tela.
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado . Guardar link permanente.

3 respostas para Capítulo 1 – O Menino das Nuvens (X-MEN)

  1. Rafaella disse:

    Joãaao, que blog maravilhoso, nem sabia que você escrevia, gostei muito. Deu até vonotade de escrever também. Beijos. Rafa (a da creche).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s