Henrique

O garoto tem uns dez anos de idade. Negro, cabelo raspado, dentes braquinhos e olhos saltitantes. Seu nome é Henrique. É um capeta que só, esse menino. Mas é maravilhoso…

Hoje, segurei para não rir com ele. As professoras estavam maquiando as meninas – fazemos um trabalho voluntário num bairro de periferia, aos domingos, onde temos aulas de evangelização, atividades recreativas e almoço para em torno de 80 crianças e jovens.

O menino chegou e, junto com outros meninos, pegaram os batons e passaram uns nos outros. As meninas, coitadas, corriam e gritavam. As professoras, pobrezinhas, faziam o mesmo. Elas não dão conta desses meninos. Ninguém dá. Eles se auto-intitulam “A turma do mal”.

Cheguei junto dele e olhei com cara reprovadora. Por algum motivo, ele me respeita. Gosto muito dele, na verdade. Eu disse: “Que história é essa de ficar passando batom nos outros?”. “Eu não estava fazendo isso não, tio!”. “Claro que estava, olha aí você todo sujo de maquiagem, o outro também sujo de batom”. Ele percebeu que não dava para esconder e riu, descoberto. Quase ri junto, de sua simplicidade. Mas mative a pose de sério. Ele voltou a se defender: “Mas os meninos todos estavam fazendo isso, não era só eu!”.

Eu disse: “Mas você está fazendo muita bagunça. Nem o Ricardo nem o Rodrigo estavam fazendo isso.” “Não tavam tio? Aahhh!, eles correram pra lá!”. “Mas, Henrique, já tive de conversar com você antes, por conta da bagunça em sala!”. “Ah, tio, mas dessa vez eu não tinha culpa!” (e era verdade, ele não tinha mesmo). “Tá, mas depois você tava fazendo bagunça no parquinho.” “É, mas não era só eu. o Ricardo e o Rodrigo também!”. “Sim, e agora, como se não bastasse, tá passando batom na cara do amigo!”

“É, mas…” Por um momento, faltou-lhe contra-argumentos. No fim, disse simplesmente: “Mas é engraçado…”.

Ele esboçou um sorriso e depois parou, porque afinal eu o havia encurralado. Mais sério, começou a refletir.

“Então não faça mais isso, senão vamos te tirar daqui hoje”, disse, ainda com a pose de durão. Ele entendeu e se aquietou.

No fundo, tinha vontade de rir e dar-lhe um abraço. Não sei se sirvo para educar.

————–

Esse menino – e todos esses outros da “turma do mal” – me são muito queridos. São garotos inteligentes, sagazes, vivos! Ao mesmo tempo, carentes, e muito sensíveis…

Talvez me vejam como um pai que não tem. Ou simplesmente como um amigo mais velho, que podem confiar. Sabem que gosto deles. A vida, para esses meninos, não é fácil. São meninos de periferia. Andam em bando porque sofrer de grupo é menos sofrido, e um pode contar com o outro. Enfrentam dificuldades familiares – sei que os pais de um deles mexem com drogas. Seus professores são ruins e entediados.

Ali, no entanto, eles sabem que nunca desistiremos deles. Acho que isso faz a diferença.

Meu olho enche d’água quando falo neles…

Anúncios

Sobre João

Olá, amigo do outro lado da tela.
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado . Guardar link permanente.

11 respostas para Henrique

  1. Nina disse:

    “No fundo, tinha vontade de rir e dar-lhe um abraço.” Parece contraditório, mas penso que é exatamente aí que ocorre a educação. Além do diálogo, ainda que bravo, junto com esse sentimento ou intenção(amorosa) que se oculta é sentido pela criança. Ah! Educar é uma dádiva! O Amarilcio, lembra dele? Ele dizia: “Eu bato, mas, também dou o doce.” E o povo de mamando a caducando o adorava.
    Acho que essa sua frase tem muito disso.
    Agora, se você serve pra educar…huumm! Nãaao, educa servindo-se rsrs.
    Lembra da D. Cora Coralina, aquela senhorinha simpática que morava na Cidade De Goiás, super nossa amiga, então, ele também costumava dizer uma frase(hoje, quase banalizada) muito bacana e sábia: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”
    Ou seja, não tem receita. :-] [-;
    Beijinhos carinhosos!!!

    Nina Soares

  2. Thallyta disse:

    De uma sensibilidade incrível! De uma doçura e beleza sem igual! O bom é conseguir imaginar a situação e os sentimentos envolvidos! As crianças sempre têm algo a nos ensinar, não? hehe JP, para mim, algumas pessoas (talvez poucas) têm a sorte de terem em si uma pontinha de docência, que se processada, (re)/pensada, desenvolvida, pode vir a ser muito mais que uma pontinha. Você, sem dúvida, é uma dessas pessoas, cuja docência se nota já no tom da fala, no carinho com que conta suas experiências, na forma como explica o que lhe perguntam. Enfim, sorte a minha de ter um amigo como você!

  3. disse:

    JP, tudo bem? A thallyta me mostrou seu blog e fiquei muito feliz de ver como os textos são maduros, sensíveis e bem escritos. Virei leitor e vou adicioná-lo na minha lista de referências no meu blog. Quando der um tempo, passa por lá: http://www.ouvidosmudos.blogspot.com

    abraço
    Zé, namorado da thallyta

  4. Chrystian disse:

    João, acredito que dessa maneira você realmente não nasceu para “educar”. Para mim (e frizo esse “para mim” para deixar claro que é a minha opinião e não deve ser tomada como verdade absoluta) educar é dar amor. Justamente o que você queria, era o que deveria ter feito: “dar-lhe um abraço”. Esses meninos te respeitam porque você os respeita. Tenho tido experiências fantásticas em sala de aula. Dia desses um aluno (que veio para Goiânia para fugir da polícia da cidade em que morava, que usava drogas – maconha, cocaína e crack, principalmente – que ano passado quis matar um outro aluno com uma faca no interclasse) foi “sacaneado” pelos colegas por ter tropeçado no pé de uma colega e caído. A reação dele, por ter se sentido subestimado e humilhado, foi de defesa: pegou todo o pó de giz que encontrou no quadro e lançou com toda a força no rosto da garota. O que você acha que fiz? O que acha que deveria ter feito? Nós temos uma relação muito boa (de confiança), dei a ele algo que ele talvez não tivesse recebido de ninguém: reconhecimento. Confiei nele e, de repente, ele jogou tudo por água a baixo. Mas não pude ser autoritário com ele. Conversei de igual para igual como sempre fiz. Fui claro. Chamei-o para fora de sala e falei firme, com calma: “Como você faz isso comigo? E agora? O que faço com você? Se não te mandar para coordenação, perco toda a credibilidade com a sala. Você sabe que essa não é a maneira correta de resolver as coisas. Eu disse para você não fazer isso. E você simplesmente fez…”
    Por um acaso (maneira de dizer), os coordenadores apareceram na minha sala. E tive que contar a eles. Falei que não poderia entregá-lo à coordenação pois perderia a confiança dele.
    No fim tudo se resolveu.

    Mas, o que quis dizer com isso, é: não fui totalmente certo, o oprimi, mas mantive minha boa relação com ele pois mostrei a verdade e meus sentimentos (estava realmente decepcionado).

    Escrevendo é um pouco difícil de dizer qual a minha real intenção com isso, mas quero enfatizar a ideia de que “educar é dar amor”.

    Falta amor na vida dos seres humanos (e principalmente na vida desses garotos).
    Esse é o segredo.

    Um grande abraço.
    Chrystian Borges

  5. Chrystian disse:

    quando disse “dessa maneira”, quis dizer “reprovando as ações do garoto”. Você é um ótimo educador quando se trata de dar amor. Tenho certeza. Podemos reprimir a criatividade e a curiosidade de nossas crianças quando reprovamos suas ações.

    • João disse:

      Talvez o mais certo seja demonstrar a sinceridade de nossos sentimentos, só. Eu digo que não sirvo para educar porque, muitas vezes, acho tão maravilhoso os meninos e meninas mais custosos! Parece que me encantam mais que os quietinhos… Mas, você tem toda razão, educar é dar amor, sobretudo. E isso eu não posso dizer que não faço.

      Gostei de ter compartilhado a sua história. Afinal, você mandou ele para a coordenação ou não? E a menina esticou o pé por querer?

      Chrystian, você dá aulas tem muito tempo? É de matemática, né? Como é a experiência? Conte-me tudo. 🙂

      Grande abraço para você.

      • Chrystian disse:

        Não o mandei à coordenação, ela veio até mim. Os coordenadores o levaram e levaram também a menina. Acredito que ela não teve a intenção de derrubá-lo.
        Dou aulas de matemática. Minha primeira experiência de ser professor foi em abril do ano passado. Tinha 6 turmas de ensino médio. Fiquei um mês nessa escola e quando saí disse que nunca mais entraria numa sala de aula como professor. A necessidade veio e, em setembro, voltei para o Estado. E estou aqui desde então. Tenho 4 turmas de primeiro ano e 1 de segundo. É cansativo, mas mesmo assim é gratificante. Até pouco tempo, ainda estava resistente ao fato de ser um professor. Tenho um enorme problema com o arcaísmo em que se encontra nossa educação e, principalmente, nossos professores. Mas na escola que estou agora, as coisas são um pouco diferentes e me sinto bem dando aula (mesmo que metade da sala preste atenção em mim – quando muito). Esta foi a maneira que eu encontrei de “ajudar” o maior número de pessoas.
        Mas sobre o exercício de dar aulas, é uma luta diária para saber como atrair a atenção deles (os alunos). É muito intrigante. O que se precisa fazer para atrair a atenção dos alunos para algo que eles (e até mesmo eu em alguns casos) não vêem sentido algum. Algo que eles nunca utilizaram. Digo para eles, quando me indagam sobre isso, que qualquer conhecimento é válido e que aquilo vai ajudá-los a adquirir maturidade, etc. Mas isso não os basta. Luto todo dia contra mim mesmo para pensar em algo novo, algo diferente… É muito bom.

        =]

  6. Chrystian disse:

    Não o mandei à coordenação, ela veio até mim. Os coordenadores o levaram e levaram também a menina. Acredito que ela não teve a intenção de derrubá-lo.
    Dou aulas de matemática. Minha primeira experiência de ser professor foi em abril do ano passado. Tinha 6 turmas de ensino médio. Fiquei um mês nessa escola e quando saí disse que nunca mais entraria numa sala de aula como professor. A necessidade veio e, em setembro, voltei para o Estado. E estou aqui desde então. Tenho 4 turmas de primeiro ano e 1 de segundo. É cansativo, mas mesmo assim é gratificante. Até pouco tempo, ainda estava resistente ao fato de ser um professor. Tenho um enorme problema com o arcaísmo em que se encontra nossa educação e, principalmente, nossos professores. Mas na escola que estou agora, as coisas são um pouco diferentes e me sinto bem dando aula (mesmo que metade da sala preste atenção em mim – quando muito). Esta foi a maneira que eu encontrei de “ajudar” o maior número de pessoas.
    Mas sobre o exercício de dar aulas, é uma luta diária para saber como atrair a atenção deles (os alunos). É muito intrigante. O que se precisa fazer para atrair a atenção dos alunos para algo que eles (e até mesmo eu em alguns casos) não vêem sentido algum. Algo que eles nunca utilizarão. Digo para eles, quando me indagam sobre isso, que qualquer conhecimento é válido e que aquilo vai ajudá-los a adquirir maturidade, etc. Mas isso não os basta. Luto todo dia contra mim mesmo para pensar em algo novo, algo diferente… É muito bom.

    =]

  7. João disse:

    Que legal, Chrystian. Estou exercitando meu lado de professor nas atividades voluntárias num orfanato e na Mocidade Espírita, onde este Henrique e outros meninos comparecem. 🙂

    Acho que a matemática pode, quase sempre, estar relacionada ao dia-a-dia dos seus alunos. Mas para isso você tem de descobrir como é a realidade desses alunos, e trabalhar a partir daí. Digo isso porque eu achava, após dois anos de trabalho na Mocidade, que conhecia os meus alunos. Quando fizemos um trabalho de doação de cestas básicas, em que visitamos a casa de muitos deles, percebi que eles eram muito mais pobres do que eu podia imaginar. Fiquei impressionado, cara. Percebi o quão pouco sabia da vida deles. E passei a preparar as minhas aulas sobre Jesus e ética de modo a fazer sentido para eles.

    Ainda sei muito pouco sobre eles, mas tenho melhorado muito. O grupo, como um todo. Por exemplo, no início, não oferecíamos almoço no fim do trabalho, porque achávamos que o foco não era esse e sim as aulas. Depois, contudo, quebramos esse preconceito, descobrimos o quão esses meninos passam fome e nos esforçamos para comprar comida e fazer o almoço. Ficamos espantados com meninas, pequenas, que repetem quatro vezes o almoço!

    E assim estamos indo…

    Você está convidadíssimo a ir à Mocidade!

    Grande Abraço

    • Chrystian disse:

      Passe-me o endereço e o dia em que posso visitá-los.
      Com certeza eu vou.

      Abraço

      • João disse:

        http://www.setegoias.com.br

        É o site da nossa ONG. Tem o endereço do lugar, e a descrição de todas as atividades sociais. A Mocidade acontece no domingo de manhã. Eu posso te dar carona, qualquer coisa (porque o lugar é longe).

        Abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s