Alberto, o psíquico – Capítulo UM, “No parque”

– E aí, meu chapa, como é que estão as coisas? – dizia o moço a um adolescente, que estava sentado no banco de uma praça tomando água de coco, com um livro descansando ao lado.

– Opa, como é que vai!? Tudo bom? – disse o menino, levantando-se.

Alberto olhava a cena dos dois ao longe, e desgostosamente. Estava na cara que sua próxima pergunta seria…

– A sua irmã não veio hoje contigo não? – perguntou o primeiro.

– Não, ela está gripada, preferiu ficar em casa.

– Poxa, que pena!

Nojento, pensou Alberto. O moço não sentia pena da garota. Estava frustrado porque esperava dar em cima da irmã do garoto hoje e ela não estava ali.

– Bom, então depois nos falamos, meu amiguinho, melhoras para a sua irmã!

O rapaz despediu-se o foi embora. Alberto riu discretamente do menino, que se sentou e pensava: “Que idiota! Pensa que eu sou uma criança ainda! Faz de amigo só pra montar na minha irmã”.

O menino, pensou Alberto, tinha toda razão. Por detrás daquela aparente simpatia, havia apenas o interesse único de transar com a irmã do outro. Não era preciso ser psíquico para perceber isso…

O garoto jogou o coco numa lata de lixo próxima e abrira  o livro que havia trazido. Enquanto isso, Alberto percebia os seus pensamentos. O menino lia um romance de fantasia e Alberto ouvia com muita clareza a sua leitura, apesar, é claro, de o menino estar lendo apenas com o pensamento.

O fato é que Alberto tinha uma capacidade de perceber os pensamentos e sentimentos das outras pessoas. Os diálogos travados num parque eram ricos de ensinamentos sobre a natureza humana, e frequentemente lhe auxiliavam em sua clínica, onde exercia a sua profissão de psicólogo. Por detrás de cada afirmação ou pergunta, cada interlocutor escondia uma infinidade de outras idéias, pensamentos, opiniões, muitas vezes completamente mascaradas pelas pessoas participantes da interlocução.

As mulheres são as criaturas mais habilidosas em esconder aquilo que pensam e sentem, concluira Alberto, após alguns meses de pesquisa. Era impressionante, impressionante mesmo, a maneira como um rosto simpático e agradável de uma mulher podia facilmente esconder pensamentos como “Que idiota o que ele diz!” ou “Que horrível a maquiagem dela!” ou “Que raiva, ela está linda!”.

Por outro lado, os homens, de maneira geral, são mais estúpidos, e sentem dificuldade em esconder aquilo que sentem, muito embora expressem de modo sofrível aquilo que efetivamente sentem. Rira durante muitas semanas após comparar o diálogo entre dois homens com o diálogo entre duas mulheres, que ocorreram num mesmo dia, em ocasiões diferentes. As últimas diziam, numa festa em que Alberto havia participado:

– Oi amiga! Tudo bom?

– Tudo amiga, como vai?

E os pensamentos de ambas eram: “Detesto essa mulher.”

Enquanto que os primeiros (num bar que Alberto costumava frequentar) diziam:

– E aí, seu filho da mãe, como é que tá?

– Pois é, seu viado, você não aparece mais!

E os pensamentos de ambos eram: “Gente boa esse cara, gosto dele!”

Tudo isso ajudava Alberto porque o exercício da psicologia requer a percepção do que subjaz às aparências. A habilidade paranormal que tinha ajudava-lhe bastante, embora ninguém soubesse que ele a detinha – imagine o estardalhaço que seria. Alberto preferia esconder de todos sua capacidade, até porque, nem ele mesmo sabia até onde ia o seu “poder”.

Após desviar os olhos do garoto, que continuava lendo, Alberto apreciava a natureza e relaxava um pouco. O parque, embora pequeno, era belo. Havia um lago onde a luz do sol poente refletia, rodeado por ipês ainda sem flor e outras plantas menores. Gansos nadavam e andavam pelo gramado e, naquele horário de fim de tarde, o parque ainda não estava tão cheio.

“Brincar, brincar, brincar.” “Balanço, balanço, balanço”.

Alberto desviou o olhar do grande lago a sua frente e observou um garotinha de dois anos de idade, que brincava no parquinho de areia próximo com a mãe ao seu lado.

– Cuidado com o balanço, filha! Você pode se machucar!

Alberto achava curiosíssimo os pensamentos infantis. Eram tão simples quanto as próprias crianças. Pensamentos fixos, todos com muita carga de sentimento, e por vezes desconexos. E, outras vezes, aquele vazio – como quando, certa feita, uma criança olhava para o céu com olhos abertos e rosto pensativo, e ao seu lado seu pai pensava “Que gracinha! O que será que o meu garoto está pensando?”, mas Alberto via que o menino simplesmente olhava ao céu, sem pensar em nada especificamente.

Alberto olhou ao relógio e já havia dado 18:00. Precisava sair o mais rápido possível dali porque em poucos minutos o parque estaria lotado, as ruas estariam abarrotadas de carros e de buzinas e de xingamentos e, principalmente, de pensamentos estressantes. Isso, para um psíquico, era enlouquecedor.

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Sobre João

Olá, amigo do outro lado da tela.
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Uma resposta para Alberto, o psíquico – Capítulo UM, “No parque”

  1. Anônimo disse:

    Esse garoto tem futuro viu, só podia ser meu irmão.
    Pedro Henrique

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