Anima e Animus em Jesus

Dentre as inúmeras passagens de Jesus Cristo, algumas das que mais me comovem são aquelas em que Ele deixa sobressair a “anima” de seu ser. Para a psicologia analítica, de Carl Gustav Jung, os traços feminis do homem e os viris da mulher correspondem a anima e animus respectivos de cada um. Isto porque todo homem apresenta certas características femininas e toda mulher certas características masculinas.

Jesus, que na maior parte das vezes deixava sobressair todo o seu lado masculino, como a autoridade, a força e a liderança (animus), em algumas ocasiões deixava extravazar as características típicas femininas, como a doçura, a submissão e a suavidade (anima). Como espírito em grau de evolução bastante superior, apresentava-se na Terra em corpo morfologicamente masculino, e no entanto, como Espírito, mostrava-se íntegro, nem homem e nem mulher, tendo conquistado todas as qualidades de ambos os sexos, o que lhe dava tom etéreo…

Como, no entanto, portador de uma mensagem que haveria de inserir-se no mundo, não obstante a aversão, o ódio e os ataques que poderia receber, Jesus precisava demonstrar-se forte e confiante, como uma fortaleza que não esmorece diante da batalha. São recorrentes as passagens em que sua força e coragem jazem demonstradas, desde o menino que no templo já, corajosamente, levantava a voz ante o público e os sacerdotes para falar do Pai, como quando, animado por “ira divina”, expulsa com o chicote nas mãos os vendilhões do templo. Outra passagem notadamente caracterizada pela coragem (quase suicida, eu diria) diante da mesquinhez dos homens, é aquela da mulher adúltera, diante de homens furiosos, moralistas que instigaram a multidão ao linchamento e já estavam com pedras nas mãos para atirá-las na pecadora “imunda”. Jesus enfrenta-os, com firmeza e autoridade, declarando: “Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra”.

A descrição que Emmanuel – há época, senador romano chamado Públio Lentulus –  faz do rosto de Jesus é extraordinária: “É muito belo no aspecto. Há tanta majestade em seu rosto, que aqueles que o vêem são forçados a amá-lo ou temê-lo.”

Existem passagens, entretanto, em que o seu lado mais suave e dócil aparece, passagens que para mim são sublimes. Já nestá última, da mulher adúltera, após a multidão largar as pedras e saírem, aproxima-se Jesus da mulher e, docemente, murmura a ela: “Aonde estão os homens que te condenaram?”. Esta frase, para mim, é dotada de tanta ternura, como uma mãe protetora a falar a uma filha indefesa, porque é pergunta carinhosa, da qual a adúltera já sabia a resposta. Diz ela: “Foram embora”. Então Jesus, ainda movido por este arquétipo feminino, diz: “Eu também não te condeno. Vá, e não peques mais”.

Ou então, o ensinamento da candeia e do alqueire. Eu poderia reescrevê-la, para que vocês, leitores, possam notar a presença “anima” em todas as suas linhas: “Vocês, meus amados, não se entristeçam. Não fiquem deprimidos. Vocês são a luz do mundo! Nós não guardamos lâmpadas debaixo da cama ou num armário. As lâmpadas iluminam as salas, as pessoas. Vocês são a luz que iluminam as pessoas! Ora, vocês são belos, e essa beleza, que para mim é clara, tem de ser revelada para a alegria de todos!”. É como uma mãe que entra devagarinho no quarto do filho, que está deprimido por algum motivo, e fala a ele baixinho que ele, não importa o que disserem, é a coisa mais bela do mundo…

Nos tempos de hoje, começa a ocorrer este entrelaçamento anima/animus, porque acredito que tenhamos passado por um número de reencarnações já suficientes para que estejam em nós, mais ou menos pronunciadas, características do sexo oposto. Os redutos machistas ainda resistem no seio de algumas comunidades, o que só representa ônus para ambos os sexos, já que um homem que negue seu lado feminino sente-se sozinho e perdido, e uma mulher que negue seu lado masculino sente-se frágil e desamparada. Mas, de uma maneira geral, já se é permitido, tolerado ou mesmo aceito e estimulado, nas comunidades ocidentais, que homens se “adociquem” um pouco mais e mulheres se “fortaleçam” um pouco mais. Em muitos casos, um e outro assumem papéis que, nas décadas passadas, eram do outro sexo…

Caminhamos rumo à condição de anjos, criaturas que sempre foram retratadas sem sexo, não porque não transam, mas sim porque já conquistaram as boas características de ambos os sexos. Digo boas, porque há características ruins de cada um deles, representando um desvio da qualidade: por exemplo, homens que ao invés de corajosos são inconsequentes; mulheres que ao invés de servis são submissas. Por isso, devemos buscar a integração das boas qualidades não só do nosso, como também do sexo oposto, entendendo o homem e a mulher que o sexo oposto, só por ser oposto, não deve necessariamente ser inacessível: pode-se aprender muito com ele ou com ela. Caso contrário, alimentaremos, indefinidamente, sentimentos de dependência em relação às características do outro sexo, por nunca conseguirmos atingi-lo.

Jesus permanece, como diz o Livro dos Espíritos, o principal modelo e guia para a humanidade. Nele, encontramos a comunhão de anima e animus que devemos buscar. Outro trecho da carta de Públio Lentulus expressa isso melhor que eu, e eu a utilizarei para encerrar este meu texto: “Seu olhar é muito afetuoso e grave; tem os olhos expressivos e claros. O que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplende, apavora, e quando ameniza, faz chorar.”

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Sobre João

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4 respostas para Anima e Animus em Jesus

  1. Renata disse:

    João, vc é uma pessoa realmente especial, sensível, humano….um espírito iluminado! Vc irradia luz e paz, continue levando essa luz às pessoas! Parabéns pelo texto, é maravilhoso! Saudades de vcs! Bjão

  2. Anônimo disse:

    Suas palavras são lindas e confortantes.Amei seu blog.

  3. Pingback: Jesus, sob uma perspectiva de um enunciador de “movimentos” espirituais | Blog do João

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