Reflexão sobre a sensibilidade

Ter sensibilidade é saber deslocar a si próprio. É empurrar a si próprio para fora de si, colocando-se à margem de si mesmo. Um “suicídio” psicológico. Explico: não consigo ser sensível ao outro se ocupo-me de mim mesmo, pondo-me como o centro de tudo. É preciso sair de mim… Só assim, é possível viver o próximo, de alguma forma.

Nestes momentos, o sujeito identitário “eu” foge (para algum lugar) e um imenso universo – o “outro” – passa a ocupar a atenção do primeiro. Pessoas mesquinhas e pobres espiritualmente ficam milisegundos, apenas, neste estado: o suficiente para rejeitar o outro pelas nuances de diferenças que conseguem, neste curtíssimo espaço de tempo, perceber. É que a volta do “eu” para o lugar em que estava é exigida rapidamente. Algumas vezes, nos demoramos um pouco mais, quando, por algum motivo, estamos mais dispostos a esquecer da gente (talvez por cansaço), e enxergamos colorido todo especial nestes momentos: situações, casos, gostos, todo particulares, o que é capaz de encantar.

Os instantes de sensibilidade, no entanto, são normalmente fugidios, porque estamos todos, quase sempre, procurando construir a nós próprios, ocupando-nos de nós mesmos inteiramente. Somos tão pequenos e imaturos! Procurando afirmar o que somos, buscando atenção, rejeitando o que não nos apetece (porque precisamos marcar nossa presença no mundo, de alguma forma). É a marca deste século. Não nos sobra tempo psicológico para viver o outro – e, muitas vezes, nem daríamos conta mesmo, a princípio, tão mesquinhos que procuramos e estamos acostumados a ser.

Creio, no entanto, que uma presença mais demorada nestes estados de sensibilidade com os outros poderia nos revelar nuances identitárias de nós nos outros. Vendo o outro com um olhar mais perfeito, enxergaremos um ser humano que possui dores, desejos, crenças, amores, desamores… Como nós.

E, talvez, esta forma de construir a si próprio seja muito mais eficiente que a primeira. Pois, ao buscar o encontro com o outro, encontramos a nós mesmos. Penso que as almas santas que já viveram na Terra viviam este estado de sensibilidade permanentemente… Madre Tereza, Chico Xavier, Irmã Dulce. Olhares sempre atentos para o outro. Fazendo esta reflexão, percebo que assim agiam não por um natural espírito sacrificial, distante em demasia dos homens comuns. Agiam, em verdade, porque, em sendo sensíveis, buscando vivenciar o outro verdadeiramente, encontravam, por fim, o que estavam procurando (o que todos nós estamos): eles próprios.

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Sobre João

Olá, amigo do outro lado da tela.
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