As vantagens de quem fica

Há muitas vantagens em viajar para estudo, trabalho, morar fora por um tempo. Novas culturas, línguas, visões, cores, possibilidades de experiências profissionais, conhecimentos não encontráveis em outros lugares, desenvolvimento de independência e autonomia pessoal… São vantagens que já conhecemos e que muitos de nós ansiamos.

Mas, para a alma inquieta como a minha, que anseia cores, quer o novo, embora não possa sair, por algum motivo ou outro, vai aí algumas reflexões sobre os vôos que nossa alma pode alcançar sem precisar cruzar as fronteiras da nossa cidade:

– Convivência com a Família: esta é uma escola abençoada, onde somos constrangidos a conviver com outras almas, alimentando-nos deles (nossos parentes) e alimentando-os, por nossa vez, construindo nós mesmos nessa convivência. Certamente as almas que, como eu, anseiam a construção pessoal, o vôo do pássaro, a liberdade, dão valor reduzido à família, enxergando-a tão-somente como uma comunidade que, por fatalidade, temos convivido desde o nascimento. No entanto, imagino como seria caso tivesse passado meus últimos cinco anos fora daqui: perderia a oportunidade de conviver com meu avô, falecido ano passado, e com ele conversei e trabalhei junto (se tivesse feito curso fora, voltaria para vê-lo em seu velório…). Perderia a possibilidade de auxiliar meu outro avô, agora um cadeirante. Privaria meus pais de minha presença, encontrando-os, após alguns anos, certamente surpreso com os fios brancos e mais rugas em suas faces, e no que poderíamos ter vivido nesse período… O Tempo, para os “que saem”, é um monstro devorador!

Acho que a boa dica para “quem fica” é ressignificar as relações de parentesco: já que vai ficar mesmo, procurar ouvir mais, dialogar mais, oferecer-se mais, e com isso compreender mais o parente, seja pai/mãe/vô/vó/tio/tia/primo/prima. Tentar desatar nós. Ao longo destes anos, reformei certas opiniões que tinha sobre determinadas pessoas da família, refiz avaliações, compreendendo mais determinadas nuances que, caso eu estivesse fora, certamente passariam despercebidas. Cada parente é um mundo diferente, um mundo pouco explorado por nós, mas que pode, por nossa vontade e simpatia, ser adentrado…

– Relacionamento afetivo: muitas vezes, em intercâmbios, viagens para estudo ou trabalho, fica mais dificultada também  estabelecimento de relações afetivas mais duradouras. E um relacionamento é uma Escola maravilhosa também, gostosa e suave, onde se aprende a cuidar, a ceder, a entender, renunciar, não se chatear, ter paciência, e também a beijar, ficar juntinho, fazer planos, criar vidas… Em geral, os intercâmbios podem gerar muitos “rolos”, mas namoros não são comuns (embora não seja impossível). Casamento e família, então, estes sim são impossíveis, já que a construção de um lar normalmente é projetada pelo indivíduo como uma realidade mais distante, a ser iniciada apenas quando este voltar. Ao menos, é claro, que se decida pelo desate definitivo do clã em que se vivia.

– Amigos: há uma tese na qual eu concordo: fazer amizades duradouras torna-se cada vez mais difícil, a medida em que os anos passam. Para os que vão, tudo será novo: cidade, casa, ambientes. É preciso recomeçar do zero as relações interpessoais. E nem sempre se logra o estabelecimento de amizades duradouras e sinceras (embora  não seja impossível). Para quem fica, há a vantagem de poder conviver com os amigos antigos, cultivar com carinho estas amizades tão preciosas, pelo menos no meu caso, foi assim, já que eles também ficaram. E as experiências que vivi com esses amigos verdadeiros não aconteceriam… O objetivo de quem vai não é fazer amigos – pelo menos em tese.

– Construções em grupo: faço uma alusão genérica, querendo dizer que, quando se está em intercâmbio, prioriza-se a construção individual. Em ficando, pode-se iniciar ou continuar construções em grupo. Para mim, por exemplo, foi possível participar de um grupo espírita, estreitar meus laços com o grupo, passar a fazer parte dele, auxiliar, manter e expandir as atividades sociais e educacionais que este grupo oferece, a partir de uma ONG, a uma comunidade mais carente, o que constituiu uma experiência maravilhosa. Caso tivesse viajado, creio que meus objetivos estariam mais centrados em mim mesmo, acho que não teria tempo para participar de algo assim, até porque, até frutificar, estes trabalhos levam tempo, e eu teria prazo certo para voltar. Não teria sido possível ver, como eu vi, um trabalho nascer, crescer, evolver, dar frutos…

Enfim. Acho que, para finalizar, importante refletirmos que a Vida é pulsante e rica, independente de onde se está. É verdade que, quando estamos (como eu estou) a bastante tempo morando no mesmo lugar, certo sentimento de tédio vai se apoderando de nós, principalmente em relação às limitações que vamos percebendo na nossa terra. O anseio pelo novo, pelo melhor, pelo diferente, apodera-se com força de nós. Soma-se a isso o fato de que, muitas vezes, ansiamos fugir do nosso reduto, por ansiar uma liberdade que nos é tolhida em nossa própria terra, por um motivo ou outro. Por tudo isso, creio que muitas vezes, quando existe a possibilidade de se ir, é bom que se vá. Certamente, será rico em aprendizado – e depois de um tempo, quando se volta, pode-se voltar-se para tudo o que disse acima, sem muitas perdas.

Mas, por outro lado, acho até certo ponto ilusória essa crença de que o que está “lá fora” é necessariamente mais belo e melhor. Creio que nossa mente é pequenina demais para perceber o quão rico é a terra onde estamos colocados para a vida. Se temos paciência, a paciência de um jardineiro, é possível que nós, sem sairmos do lugar, enriqueçamo-nos grandemente com lindas flores que brotam desapercebidas, as quais, aliás, ser-nos-ia impossível granjear em outra terra que não a nossa…

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Sobre João

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