A menina e os livros

Ela não havia cursado biblioteconomia. Também, pudera, tinha apenas 14 anos! No entanto, era a “Senhora dos Livros” daquela biblioteca, de uma pequena cidade interiorana. Sabia de cor onde estava cada um dos exemplares, e olha que não era uma acervo pequeno: algo em torno de dez mil livros – um para cada habitante!

O prefeito que havia levantado a biblioteca nunca ganhara outra eleição, porque não era exatamente isso que o povo queria (buscavam asfalto, ponte, comida, saúde: coisas concretas, e não fantasias). Mas a menina sempre foi encantada com ela. Que magnetismo era aquele, que os livros lhe exerciam? Não saberia dizer.

Como a prefeitura precisava de alguém para cuidar da biblioteca, ela logo se candidatou (porque também precisava ganhar algum dinheiro para ajudar a família). O serviço era simples: anotar as locações, organizar os livros nas prateleiras… E o movimento lá era bem pequeno. Duas, três pessoas, às vezes algum estudante, e na maior parte das vezes: ninguém.

Por isso, a menina passava a maior parte do seu tempo… lendo! As horas voavam, enquanto ela viajava por entre piratas, bichos, florestas, castelos, mágicas, discos voadores, namoros, traição, medo, valentia!… Sentia-se em casa ali dentro: entre ela e os livros, havia uma cumplicidade enorme, difícil de encontrar de gente pra gente. Até o jeito de passar a página, revelava uma leveza que em mais ninguém naquela cidade existia (porque, aliás, muitos não sabiam nem ler).

Do lado de fora, a rua estreita, casinhas simples, vez ou outra um passando de bicicleta ou de burro. A igreja e o sino, do outro lado da praça. O barulho do trem de longe. A vida pacata de uma cidade de interior.

E, do lado de dentro, a jovem menina sentada, defronte a porta de entrada, por detrás de um balcão sob o qual pousava um caderno simples. Crachá no peito escrito “Bibliotecária”, com os olhos para baixo, óculos fundo de garrafa, passando as páginas de mais um livro, viajando tão distante, que ninguém dali poderia suspeitar!

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Sobre João

Olá, amigo do outro lado da tela.
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