Da impossibilidade de se utilizar a Bíblia para condenar a homossexualidade – Um passeio sobre Levítico, Êxodo e Gênesis

O Levítico é o terceiro livro do Velho Testamento e faz parte do Pentateuco (cinco primeiro livros da Bíblia), cuja procedência é atribuída à Moisés. É ali que há a proibição, que teria sido transmitida de Javé (Deus) à Moisés, de dois homens se deitarem juntos: “Não se deite com um homem, como se fosse com mulher: é uma abominação” (18:22).

A partir deste trecho bíblico é que muito religioso diz ser condenável, por Deus, a prática homossexual.

No entanto, é preciso ter muito cuidado antes de trazer à tona, para as sociedades do século XXI, uma norma de um Código de Posturas de quinze séculos antes de Cristo.

Digo isto considerando outros trechos do próprio Levítico. Vejamos:

“Falou mais o SENHOR a Moisés, dizendo: Fala a Arão, dizendo: Ninguém da tua descendência, nas suas gerações, em que houver algum defeito, se chegará a oferecer o pão do seu Deus. Pois nenhum homem em quem houver alguma deformidade se chegará; como homem cego, ou coxo, ou de nariz chato, ou de membros demasiadamente compridos, Ou homem que tiver quebrado o pé, ou a mão quebrada, Ou corcunda, ou anão, ou que tiver defeito no olho, ou sarna, ou impigem, ou que tiver testículo mutilado. Nenhum homem da descendência de Arão, o sacerdote, em quem houver alguma deformidade, se chegará para oferecer as ofertas queimadas do SENHOR; defeito nele há; não se chegará para oferecer o pão do seu Deus. Ele comerá do pão do seu Deus, tanto do santíssimo como do santo. Porém até ao véu não entrará, nem se chegará ao altar, porquanto defeito há nele, para que não profane os meus santuários; porque eu sou o SENHOR que os santifico (21:16-23).

Outro trecho:

E quanto a teu escravo ou a tua escrava que tiveres, serão das nações que estão ao redor de vós; deles comprareis escravos e escravas. Também os comprareis dos filhos dos forasteiros que peregrinam entre vós, deles e das suas famílias que estiverem convosco, que tiverem gerado na vossa terra; e vos serão por possessão. E possui-los-eis por herança para vossos filhos depois de vós, para herdarem a possessão; perpetuamente os fareis servir; mas sobre vossos irmãos, os filhos de Israel, não vos assenhoreareis com rigor, uns sobre os outros” (25:44-46)

Mais um:

E aquele que blasfemar o nome do SENHOR, certamente morrerá; toda a congregação certamente o apedrejará; assim o estrangeiro como o natural, blasfemando o nome do SENHOR, será morto. E quem matar a alguém certamente morrerá. Mas quem matar um animal, o restituirá, vida por vida. Quando também alguém desfigurar o seu próximo, como ele fez, assim lhe será feito: Quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará. Quem, pois, matar um animal, restitui-lo-á, mas quem matar um homem será morto. Uma mesma lei tereis; assim será para o estrangeiro como para o natural; pois eu sou o SENHOR vosso Deus. E disse Moisés, aos filhos de Israel que levassem o que tinha blasfemado para fora do arraial, e o apedrejassem; e fizeram os filhos de Israel como o SENHOR ordenara a Moisés”. (24:16-23)

Algumas proibições alimentares:

E falou o SENHOR a Moisés e a Arão, dizendo-lhes: Fala aos filhos de Israel, dizendo: Estes são os animais, que comereis dentre todos os animais que há sobre a terra; Dentre os animais, todo o que tem unhas fendidas, e a fenda das unhas se divide em duas, e rumina, deles comereis. Destes, porém, não comereis; dos que ruminam ou dos que têm unhas fendidas; o camelo, que rumina, mas não tem unhas fendidas; esse vos será imundo; E o coelho, porque rumina, mas não tem as unhas fendidas; esse vos será imundo; E a lebre, porque rumina, mas não tem as unhas fendidas; essa vos será imunda. Também o porco, porque tem unhas fendidas, e a fenda das unhas se divide em duas, mas não rumina; este vos será imundo. Das suas carnes não comereis, nem tocareis nos seus cadáveres; estes vos serão imundos. De todos os animais que há nas águas, comereis os seguintes: todo o que tem barbatanas e escamas, nas águas, nos mares e nos rios, esses comereis. Mas todo o que não tem barbatanas, nem escamas, nos mares e nos rios, todo o réptil das águas, e todo o ser vivente que há nas águas, estes serão para vós abominação. (Levítico 11:1-10)

Em Êxodo, o segundo livro do Velho Testamento, também atribuído a Moisés, é possível encontrar outros trechos curiosos:

“Então Moisés convocou toda a congregação dos filhos de Israel, e disse-lhes: Estas são as palavras que o SENHOR ordenou que se cumprissem. Seis dias se trabalhará, mas o sétimo dia vos será santo, o sábado do repouso ao SENHOR; todo aquele que nele fizer qualquer trabalho morrerá. (Êxodo 35:1-2)

E se um homem vender sua filha para ser serva, ela não sairá como saem os servos.Se ela não agradar ao seu senhor, e ele não se desposar com ela, fará que se resgate; não poderá vendê-la a um povo estranho, agindo deslealmente com ela. Mas se a desposar com seu filho, fará com ela conforme ao direito das filhas. Se lhe tomar outra, não diminuirá o mantimento desta, nem o seu vestido, nem a sua obrigação marital. E se lhe não fizer estas três coisas, sairá de graça, sem dar dinheiro” (Êxodo 21:7-11)

Por tudo isto, uma coisa está clara: se, em uma perspectiva de interpretação literal do Velho Testamento, é abominável a homossexualidade, é igualmente abominável trabalhar nos sábados (pena de morte), ou permitir que cegos, coxos ou anões se aproximem do altar, ou comer porco ou molusco. Ao mesmo tempo, sob o influxo das regras ali colocadas, devemos agir segundo o ditame olho por olho, dente por dente, sendo que, por exemplo, se alguém matar, deve morrer (portanto, a pena de morte é legítima), e, se alguém blasfemar contra Deus, deverá ser apedrejado. Além disso, Javé permite escravizarmos as pessoas (desde que sejam de nações vizinhas), ou mesmo vender sua filha como escrava, desde que cumpramos com certas regras que “humanizam” essa espécie de escravização.

Este é o grande equívoco em trazer a tona os livros antigos da Bíblia e interpretá-los literalmente, sem uma primeira e necessária interpretação do contexto histórico-cultural da época. E não creiam que pessoas como Silas Malafaia e Marco Feliciano desconheçam o que acabo de dizer… Apenas são desonestos intelectualmente com seus fiéis (uma dos motivos pelos quais todos nós, sejamos evangélicos, católicos, espíritas, não podemos engolir goela abaixo tudo o que aqueles que nos “pastoreiam” dizem, devemos sempre refletir e pesquisar sobre tudo o que é dito – essa postura não começou comigo, e sim com Martinho Lutero).

O Pentateuco atribuído a Moisés é, em verdade, a história do povo hebreu, monoteísta, patriacalista, passando pelos grandes patriarcas hebreus, a fixação deste povo no Egito, sua escravização, o seu êxodo (guiados por Moisés), a busca da Terra Santa, a formação de Israel. Com tudo isso, é natural que os textos religiosos fiquem impregnados com a maneira de pensar e agir da cultura hebraica antiga. Até porque não havia uma separação entre Estado e Religião, de modo que Moisés, como o legislador desta cultura, estatuía as normas de conduta, alegando a inspiração divina (“Javé mandou dizer…”), mas, em verdade, apenas regrava as condutas humanas, de acordo com a maneira de pensar da época. Recebia, sim, inspiração divina, mas não estava isento de falhas em sua interpretação mediúnica (aliás, o Espiritismo, através do estudo da mediunidade, afirma que esta sempre guardará, em maior ou menor monta, animismo em seu bojo, pois a mente mediúnica é uma intérprete da Espiritualidade), nem poderia estatuir normas muito avançadas ou não condizentes para aquele contexto específico, onde o machismo – advindo do patriarcalismo – era muito forte.

Moisés é, no entanto, excepcionalmente relevante, quando por exemplo estatui a Lei de Talião para o seu povo, em substituição à vingança desproporcional (para quem matava quando recebia um soco, já está muito bom uma Justiça que dê apenas o direito de dar outro soco em revide), além de outras normas avançadas para a época (como as mencionadas regras de “humanização” para escravizar filhas). Além disso, o Judaísmo é o berço do Cristianismo, porque somente aquele sustentava o monoteísmo, e a ideia do Deus único – em terras cercada de politeístas – foi fundamental para a base da doutrina de Jesus Cristo.

A questão de Sodoma é outra levantada sempre, pelos religiosos que não concordam com a homossexualidade. Vejamos Gênesis:

E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma; e vendo-os Ló, levantou-se ao seu encontro e inclinou-se com o rosto à terra. (…) E antes que se deitassem, cercaram a casa, os homens daquela cidade, os homens de Sodoma, desde o moço até ao velho; todo o povo de todos os bairros. E chamaram a Ló, e disseram-lhe: Onde estão os homens que a ti vieram nesta noite? Traze-os fora a nós, para que os conheçamos. Então saiu Ló a eles à porta, e fechou a porta atrás de si, E disse: Meus irmãos, rogo-vos que não façais mal; Eis aqui, duas filhas tenho, que ainda não conheceram homens; fora vo-las trarei, e fareis delas como bom for aos vossos olhos; somente nada façais a estes homens, porque por isso vieram à sombra do meu telhado. (…) Então disseram os anjos a Ló: Tens alguém mais aqui? Teu genro, e teus filhos, e tuas filhas, e todos quantos tens nesta cidade, tira-os fora deste lugar; Porque nós vamos destruir este lugar, porque o seu clamor tem aumentado diante da face do SENHOR, e o SENHOR nos enviou a destruí-lo. (Gênesis 19:1 e 4-8 e 12-13)

Por conta disso é que muita gente fala que a homossexualidade seria proibida aos olhos de Deus. Só que esta cidade, tanto quanto Gomorra, teria caído não pela prática da homossexualidade, mas pela perversidade sexual (estupros), falta de compaixão de seus habitantes para com os estrangeiros, xenofobia, egoísmo e desigualdade social, conforme quase a unanimidade do que dizem os estudiosos da Bíblia sobre o assunto. E, cabe, ainda, aqui, uma reflexão sobre o Deus hebreu: da mesma forma que o faraó egípcio e seu povo foram fuzilados pelas pragas por não respeitarem o Deus dos judeus, conforme a história que todos conhecemos de Moisés, aqui, temos outra passagem de cunho semelhante, em que Deus é capaz de destruir a vida protegendo o hebreu Ló e sua família, contra um povo perverso, trazendo, como na história de Moisés, uma noção ainda humanizada e apaixonada do que seja Deus.

Neste mesmo trecho de Gênesis, cabe ainda uma pequena nota: vejam que Ló oferece as próprias filhas para serem estupradas! Um machismo incompreensível nos dias atuais, mas que, para a cultura patriarcalista hebraica, representava uma atitude honrosa: proteger estrangeiros que hospedam em sua casa, oferecendo suas filhas em troca.

Por fim, muitos religiosos argumentam que a homossexualidade não é natural pois Deus teria criado o homem e a mulher para se unirem para a procriação. Fossem todos homossexuais, a espécie não poderia progredir. Chamam Gênesis:

“E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.” Gênesis 1:27-28

No entanto, não há alusão específica a proibição homossexual neste trecho. Há, sim, uma determinação, que é natural muito mais que divina, de procriação da espécie. Se a partir da Gênesis pudéssemos condenar a homossexualidade em razão de sua esterilidade, então, ao mesmo tempo, teríamos de condenar as pessoas heterossexuais estéreis, ou os casais heterossexuais que não tem filhos, já que estes não “frutificam” nem “multiplicam-se”. Numa perspectiva mais ampla, estes raciocínios podem conduzir ao pensamento de uma negação ao planejamento familiar, tão necessário em países subdesenvolvidos, e até mesmo na condenação ao sexo pelo prazer – porque também estéril -, chegando-se ao absurdo de condenar o uso da camisinha, como já foi feito pelo Papa Bento XVI.

É verdade que, se todos fossem homossexuais, a espécie não iria progredir. Mas, na verdade, ela está e esteve sempre presente numa parcela minoritária (de 5 a 10% da população), e, creio, assim sempre será. Não se trata de uma escolha: as pessoas já nascem assim, ou se descobrem assim, independentemente de sua vontade consciente, conforme estudos sobre o assunto e depoimentos de homossexuais. Existe desde a Antiguidade (aliás, desde a Pré-História, como indicam alguns estudos), em todos os povos, independentemente de estes apresentarem uma cultura de maior aceitação ou menor. Foi inclusive identificada entre os animais! E quer algo mais “sem culpa” do que os animais?

Ademais, as pessoas não podem ter a pretensão de entender, de modo definitivo, o pensamento de Deus. É necessário refletir de modo mais profundo sobre Ele/Ela, porque o Criador/Criadora é por vezes misterioso e sutil demais – não era Eistein que dizia “Quero conhecer os pensamentos de Deus, o resto é detalhe”? Eu, por exemplo, refletindo sobre a homossexualidade, pensei: “e se Deus, em sua infinita sabedoria, concebeu a homossexualidade, dentro de seu plano, para que uma parcela a população vivesse em condição de esterilidade, para conter o avanço das populações?”.

Na verdade, Adão e Eva constituem uma alegoria, já que a Criação Divina já foi desvendada pela ciência através da teoria evolucionista (e que é, na minha opinião, muito mais bela), o que mostra que não podemos interpretar a criação em Gênesis como verdadeira em seu sentido objetivo – devemos entender essa passagem bíblica não no seu sentido literal, mas no seu sentido simbológico, a tentativa filosófica humana de dar sentido a sua existência e ao mundo, buscando o mito de uma criação.

Bom… Por tudo o que disse, uma coisa para mim já está bem clara: não é a Bíblia que defende a rejeição e a inaceitação, mas sim os próprios homens. A Bíblia e Deus são usados para legitimar ou dar suporte a este preconceito, como a dizer “não sou eu quem penso assim, é a Bíblia que o diz”, tirando a responsabilidade do sujeito em assumir que tem preconceito/nojo/rejeição/incompreensão.

Assim, gostaria de finalizar o texto – e já agradecendo a paciência dos que me leram até o fim – com a seguinte sentença: quem quiser sustentar a postura de não-aceitação quanto à homossexualidade, esteja livre para fazê-lo, mas não o faça em nome da Bíblia… Faça em nome de si próprio.

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Sobre João

Olá, amigo do outro lado da tela.
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3 respostas para Da impossibilidade de se utilizar a Bíblia para condenar a homossexualidade – Um passeio sobre Levítico, Êxodo e Gênesis

  1. Rhayane Werneck disse:

    MUITO BOM, MUITO MUITO BOM João, de verdade. Esse final foi a cereja do bolo. É por essas e outras que eu realmente fico motivada a acreditar que existam humanos no mundo que compartilham do principal “mandamento” deixado a nos de amar e respeitar o próximo. Nada mais lindo que o respeito.
    Parabéns pelo texto.
    Abraços

  2. João esse texto é simplesmente ESPETACULAR!!! Como no momento estamos com toda essa polêmica acerca da dita “cura gay” eu estava procurando um texto que me explicasse de forma objetiva e lógica esses trechos da bíblia, e seu texto foi simplesmente incrível! Parabéns!!!

  3. João, acho que o texto não poderia ser melhor … Compartilho de sua opinião sobre as pessoas interpretam a bíblia apenas do modo que as convém, e concordo com a Rhayne, o final realmente foi a cereja do bolo … as pessoas deveriam praticar mais o amor e respeito ao próximo e parar com o fanatismo e de achar que só as suas próprias crenças são as únicas certas. Amei seu blog, parabéns !

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