Sobre os Pais / Ao meu pai

Sobre os pais

Cada um tem – ou teve – o seu pai. Apesar de cada pai ser de um jeito diferente, os filhos os amam, porque eles representam o carinho e a proteção para nós, desde o início, desde o princípio.

Há vários tipos de pais: uns pais são mais gordinhos, outros magros; uns são fechadões, outros mais expansivos; uns são autoritários, outros, doces (e ainda há aqueles que são autoritários e também doces); alguns são bastante estudados, outros, estudaram quase nada; há pais que jogam bola, e outros que são péssimos em esporte. Há pais que são crianças como nós (todos são criança, como a música do Renato Russo – o que seremos quando crescer), mas alguns são muito infantis – filhos mais maduros que pais, já viram? Há pais simples, e também há pais complexos. Tem pai que é o avô, na verdade – porque às vezes, a criança nunca teve pai. Tem pai que é o padrasto. Tem pai que é o irmão mais velho.

E todo filho tem orgulho de seu pai, de alguma coisa – por mais que a relação seja meio conturbada. Por mais que o filho/filha diga que detesta o pai, sempre ficará meio orgulhoso quando ouvir falar bem dele. Pensará: “É o meu pai”. E todo pai, mesmo nas relações mais difíceis, ama o seu filho. E sempre esse filho será para ele aquele bebê que ele carregou – por mais que ele não diga, não expresse. É verdade que alguns pais idealizam os filhos, e nem sempre o filho ou filha acaba sendo do jeito que ele queria – mas, mesmo assim, os pais cedem e aprendem a amar mais que o filho imagina (ou mais até do que eles, os pais, poderiam confessar).

Há, também, infelizmente, pais viciados… Pais ausentes… Pais grosseiros… Pais que abdicam de seu posto de pai. Que tem suas dores também, seus conflitos. São, sobretudo, doentes: mas os filhos os amam, e eles também amam, da sua maneira, fazendo o que dão conta de fazer. Mais infelizmente ainda, existem os pais violentos, cruéis, abusadores, que de fato, desonram o título “pai” que carregam. Estes são profundamente doentes.

Mas a mágica é que, por pior que seja a relação, todo filho tem uma ligação inevitável, inexplicável, com o seu pai. Porque ele – e sobretudo ela, nossa mãe, mas também ele sim – nos deu a vida. Esta é uma dívida impagável com nossos pais. Impagável mesmo. Nosso sangue é o dele, nossa genética, nosso corpo.

E, se vocês repararem, não somos parecidos com eles só fisicamente. Somos muito – muito mesmo – o nosso pai, em quase tudo. Inúmeros traços de nossa personalidade são deles: somos nós imitando quem acreditamos ser nosso herói. Já refletiram o quanto de vocês é, na verdade, seus pais?

Para os pais que já foram, o herói nunca morre dentro do peito – estará nos filhos, como parte deles. E na lembrança dos momentos com o “velho”. Na gratidão por tudo. A Vida tem suas razões insondáveis: penso que, no entanto, não deixa de ser generosa, mesmo em seu efêmero… (como uma flor que desabrocha mais rápido ou um pássaro que encanta e vai embora)

Escrevi um texto simples para meu pai, e queria compartilhá-lo aqui. Talvez se identifiquem em algumas coisas. Em outras, não. Cada um tem o seu pai, a sua relação. De qualquer forma, acho que vale a pena publicá-lo: pois é uma homenagem, mesmo que simples, ao meu pai querido.

O Meu Pai

Barulho das chaves…
Assovio…
Papai chegou!
Corremos para o Abraço!
Ouço seu riso ao nos ver – eu e meu irmão.
Estamos imensamente alegre.
—————————-
Estou em seu colo.
Não consigo dormir.
Você canta (LP da Turma da Mônica)…
E eu durmo.
—————————-
Acordo no escuro.
Saio correndo do meu quarto.
Entro por debaixo da coberta…
Estou com meu pai.
Estou seguro, agora.
—————————-
Vamos ao toboágua? Ah, pai, vamos!
Subimos as escadas…
Sento. Entre as pernas do meu pai, que vai deitado.
E descemos…
BEM rápido!
—————————-
Estamos na piscina.
É fundo.
Ele pede que eu segure em seu ombro.
E mergulhamos juntos…
Ele nada até o outro lado, e estou com ele, navegando…
—————————-
Meu garoto!
– Meu papai!
—————————-
Vendo “Esqueceram de Mim”
A parte em que os ladrões atrapalhados tentam invadir
Meu pai rindo demais!
Como gosta de um mal feito!
E eu e meu irmão rindo também
(ele ria, olhando para tela; nós ríamos assim, olhando para ele, olhando para a tela – o legal não é o filme: é estar com o pai, vendo o filme)
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Sempre um gostoso sorriso no rosto. Sempre.
—————————-
A primeira vez que o vi chorar.
Eu ainda era criança…
Meu irmão estava hospitalizado, muito doente.
Ele chorou, no banheiro…
Eu vi, e eu chorei também, meio sem saber o que acontecia.
Depois, descobri: era o choro de angústia, de quem não quer perder o filho.
—————————-
– Como estão suas notas?
– Quero ver. Onde está a prova?
– Tirou quanto?
(estou na minha segunda graduação, até hoje ele faz estas perguntas)
—————————-
Eu tocando teclado.
Ele deita na cama…
Sem camisa, barrigão a mostra.
E ouve.
– Toca aquela!
– Toca aquela outra agora.
—————————-
– Falar oi pro vovô, pra vovó.
Sempre a recomendação, no elevador, antes de chegar no 14º andar.
Cuidou carinhosamente do meu avô até o fim – dando banho, fazendo barba.
—————————-
“Ah, meu filho é muito inteligente”
“Ah, meu filho é muito bondoso”
“Ah, meus meninos comem de tudo!”
—————————-
O carinho que hoje dispenso às crianças
Quem me ensinou, foi ele.
Me vejo, exatamente, hoje,
Como eu o via, quando criança.
(até a brincadeira de fazer pum com a mão)
—————————-
Sou meu pai,
No jeito suave de tratar as pessoas
Sou meu pai,
Na maneira otimista de encarar a vida
Meu pai me ensinou, sobretudo
O carinho.
—————————-
Não sei ser tão engraçado quanto ele,
(ele é o Mestre!)
Mas aprendi a gostar do simples, do bobo, do alegre
Por conta dele.
E isso me fez uma pessoa tão melhor.
—————————
“O que eu quero, filho, é que você seja feliz”
Ele me disse.
Corajosamente.
—————————
Alma boa.
Alma simples.
Como gosto de ti!
Como sou grato…
Por tudo!
Tenho contigo uma dívida impagável!
Impossível te retribuir tudo.
Só mesmo sendo um homem de bem,
Procurando ser uma pessoa boa.
Pra poder te dar orgulho.
(Porque sei que é isso que você mais quer)
E te retribuir, sempre,
Todo amor,
Todo cuidado.
Até o fim.

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Sobre João

Olá, amigo do outro lado da tela.
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4 respostas para Sobre os Pais / Ao meu pai

  1. Anônimo disse:

    Linda homenagem João Paulo … em cada trecho da poesia identifiquei seu pai direitinho..
    Acredito que ser pai é aquele que orienta, estimula, parabeniza, chama à atenção. Enfim, o verdadeiro pai é aquele que prepara o filho para encarar a vida sem medo, com a confiança de que pode andar com as próprias pernas, porque se cair tem a segurança de poder contar com a mão amiga do pai para se levantar. Seu pai é um verdadeiro PAIZÃO..BJS

  2. silvia disse:

    Como e bom ler seu blog, Joao!

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