Jesus, sob uma perspectiva de um enunciador de “movimentos” do Espírito

Desculpem o título grande, mas foi o melhor que consegui, para este texto. Sou um pequeno conhecedor de Jesus Cristo. Há uns 5 anos, mais ou menos, que lemos e comentamos, em casa mesmo, pequenos trechos da Bíblia, mais especificamente, dos quatro Evangelhos, sempre uma vez por semana (o leitor espírita estará familiarizado com o que chamamos de “Culto do Evangelho”, embora aqui em casa, por também haver uma pessoa católica, preferimos a leitura “seca” da Bíblia mesmo – o que, aliás, é também muito bom, pois, de maneira geral, infelizmente nós espíritas não temos tanta familiaridade com os Evangelhos). Somadas a este estudo semanal os livros espíritas que falam mais diretamente das passagens do Cristo – como, por exemplo, os livros de Emmanuel da coleção “Fonte Viva”, bem como o “Boa Nova” de Humberto de Campos, “Jesus no Lar” de Neio Lúcio, como, é claro, o “Evangelho Segundo o Espiritismo” de Kardec, reuni, nestes meus 5 anos em que me considero cristão, uma pequena noção do que seja Jesus. Desta pequena noção, escrevo meu texto para compartilhar com vocês o que, acredito, seja a minha maior conquista, desta pequena noção.

Antes, no entanto, queria apenas explicar que, quando digo que há 5 anos me considero cristão, não pensem que passei a orar todos os dias, perdoar indiscriminadamente, amar a todos e acreditar de forma fiel em Jesus desde esta data. Na verdade, ainda sou intensamente imperfeito, tenho dificuldades em orar, e confesso que não compreendo e quase não concordo (é sacrílego dizer isto, mas a verdade é que eu realmente discordo frontalmente) com certas passagens de Jesus. Tenho também (e agora o sacrilégio é com o Espiritismo) grande dificuldade em compreender Jesus como único governador espiritual do orbe, quando a sua figura é pouco ou nada representativa para boa parte do globo – é preciso lembrar que, para a cultura judaico-cristã ocidental, ele é realmente a maior referência, mas levando-se em consideração o islamismo com a figura de Maomé, tanto quanto o budismo com Gautama, para considerar os mais famosos, Jesus é um desconhecido -, o que, na verdade, não lhe tira a sua grandeza, mas ainda penso numa gestão compartilhada lá em cima por estes “Grandes”.

Pois bem – é preciso que eu seja sincero -, feitas estas considerações, vamos ao que eu quero realmente falar: Jesus é um enunciador de “movimentos” espirituais. Haroldo Dutra Dias, um grande conhecedor do Evangelho e grande espírita, disse algo uma vez em um Congresso Espírita de Goiás (aliás, experiência riquíssima este Congresso, vale a pena ir, independente se é espírita ou não – ocorre sempre no carnaval), que me tocou profundamente: “Quando Jesus encontrou com Públio Lentulus e lhe dirigiu a palavra, já via Emmanuel”. Compreender que o olhar do Cristo alcança não somente o que estamos vendo, aqui e agora, mas vara o espaço e o tempo e nos encontra em posições diversas, a depender de nossas escolhas, é algo que engrandece não só a visão que temos do Cristo, como também coloca os seus ensinamentos sob uma perspectiva bastante diferente.

Jesus olhava Públio, com suas mazelas, seus erros, e seus imensos potenciais, e diz: “Depois de longos anos de desvio do bom caminho, pelo sendal dos erros clamorosos, encontras, hoje, um ponto de referência para a regeneração de toda a tua vida. Está, porém, no teu querer o aproveitá-lo agora, ou daqui a alguns milênios…”
Para mim, é impossível compreender os ensinamentos do Cristo sem este suporte fornecido pela codificação, de compreender que (1) somos Espíritos em evolução, (2) já vivemos muitas vidas e viveremos outras, (3) a Lei de Causa e Efeito se opera sempre, ao longo de nossa trajetória. Sei que há pessoas que não são espíritas e que possuem experiências riquíssimas com o contato com os ensinamentos do Cristo. No entanto, para mim, e voltando ao que queria dizer, Jesus é um grande enunciador de “movimentos” espirituais, e explico com exemplos.

Quando Jesus diz, por exemplo, “Pois não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não existe nada de oculto que não venha a ser conhecido” (Mateus: 10,26), está a enunciar um “movimento” que será realizado por cada um de nós, em algum momento da nossa trajetória espiritual. É possível que a criatura esconda segredos até o final de sua vida, mas em algum momento, na sua trajetória, podendo ser no plano espiritual ou em outra vida, ela atravessará o constrangimento de ter os seus mais íntimos sentimentos revelados. Outra de Jesus: “Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado” (Lucas 14:11). É um movimento que qualquer alma que se exalta passará: a de ser humilhada. E o contrário também. Novamente, é preciso entender que não necessariamente na mesma encarnação isto acontecerá (peguemos Públio Lentulus outra vez: após ser senador romano, orgulhoso de sua posição social, ele reencarnará como Nestório, um escravo. Veja aí Jesus descrevendo o movimento espiritual…). “Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra” (Mateus 10:35), olha aí novamente uma enunciação de um movimento tão comum, que tanta gente atravessa: a de ser incompreendido em sua fé por seus semelhantes mais caros. Quantos já não atravessaram, e quantos ainda não atravessarão tal situação? Pois é natural que, em sendo o processo de evolução espiritual algo individual, cada um vai alcançar determinado nível de entendimento, nem sempre semelhante ao das pessoas de seu convívio mais íntimo. “Eu garanto a vocês: nenhum profeta é bem recebido em sua pátria” (Lucas: 4,24), olha aí outra verdade. Quantos talentos são desprezados em seu contexto de origem? Quantas almas notáveis são completamente incompreendidas pelos seus conterrâneos? Peguemos Van Gogh por exemplo, que morreu louco e pobre, e se indagava durante a vida: “Não sei porque ninguém compra os meus quadros”.

Acho que os exemplos são suficientes. Veja que Jesus faz mais que simplesmente elucidar os mecanismos de causa e efeito. No “todo aquele que humilha será humilhado”, está, de fato, a por em evidência um mecanismo cármico, mas em “eu vim por em dissensão pai e filho”, está simplesmente a enunciar um fato que será por cada um de nós experimentado, de alguma forma, senão nesta, em outra vida. Por isso, prefiro dizer que está a enunciar “movimentos”, como a fazer-nos compreender que sua visão é cósmica, abrangendo a vida e seus movimentos, considerando o Espírito em sua imensa trajetória, rumo a ascensão.

Há, na verdade, outras coisas que percebi em Jesus, e se você leu este texto até o fim, valeria a pena ler também um que escrevi, sobre “Anima e Animus em Jesus”, que é outro lance que eu “saquei” de Jesus, mas acho que este é o mais importante. E quando a gente compreende isso, a leitura do Evangelho fica gostosíssima, porque a gente vai percebendo que o que Jesus estava dizendo, ali naquele contexto histórico-cultural específico, para os homens do primeiro século da antiga Palestina, são verdades que valem em qualquer época, em qualquer lugar, porque são, em verdade, enunciações de “movimentos”, os quais a criatura humana inevitavelmente atravessará.

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Sobre João

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