Eu assumo a culpa

Eu assumo a culpa do machismo dos homens. Do racismo dos brancos. Do preconceito de classe social também. Tanto do presente como do passado.

Nasci homem, nasci branco, e não sou pobre. Você, mulher; você, negro, indígena; você, pobre: vocês tem o direito, inclusive, de me julgarem. E não preciso de desculpas, caso o julgamento seja rigoroso demais…

Na verdade, eu é que peço perdão! Por todos esses babacas que deixaram e tem deixado a vida de vocês tão triste, injusta, desumana… E que fazem com que o teu olhar seja, muitas vezes, carregado de receio e de amargura…

Nasci no privilégio, e, de início, achava, ingenuamente, que assim fosse pra todo mundo… Depois fui percebendo, com assombro, que podia responder negativamente para perguntas como: “sabe o que é ser mulher e andar na rua com medo de ser estuprada?”, “sabe o que é ser negro, sair de casa e tua mãe disser: leva teus documentos pra não ser confundido?”, “sabe o que é ser pobre e ser humilhado no hospital, a espera de um médico que nunca vem, sentido dor?”, e outras perguntas…

De coração: queria que o mundo ainda não fosse tão bosta assim!…

Peço perdão para os meus machismos, racismos e classismos de cada dia, que tenho honestamente tentado superar. Me sinto muito mal quando ainda me incorro em alguns deles…

E contem comigo, sempre!…

À minha mãe

Minha mãe! Não sei a de vocês… Mas a minha é aquela menina morena, ingênua! A pequena chorosa, a garotinha caçula de quatro irmãos!… Menina devotadíssima à mãe e ao pai, buscando o carinho e valorizando a proteção… O pai, um senhor sério, honesto, de poucas palavras… Que amava com potência, porém sem sorrisos ou afagos… Amava nas entrelinhas (que saudades lembrar desse amor!)… A mãe, aquela senhora educada na elegância do passado, devotada ao lar, e que, com o passar do tempo, passou a revelar a face da amiga confidente, aberta ao diálogo franco!… (como dizia meu avô, quando falavam para ele que minha mãe era “caladinha”: isso é porque você não a viu conversando com sua mãe!) Então, minha mãe é essa mulher tímida e linda! Moldada num amor que é cuidado, que é proteção, que é respeito e disciplina… Um eterno preocupar-se!… E que, em 1990, aos 25 anos, fez-se mãe!

Quando a conheci, ela já era a minha Mãe, com o “m” maiúsculo. Quando se deu essa passagem, da jovem mulher para a mãe? Não saberia explicar… Sei que, no egoísmo que caracteriza a visão dos filhos, que tudo espera e pouco oferece, somente agora consigo enxergar melhor um pouco de sua trajetória, percebendo nos seus atos de bondade para conosco um traço dessa menina madura que se foi formando no tempo!… Nasci no seio de dois corações imensos: o do alegre, brincalhão, emotivo e dedicado pai, que chega e faz a festa!; e o da singela, cuidadosa, prudente e protetora mãe, cujo sobrenome é preocupação… É nessa sinfonia que me compûs!

E esse texto é uma homenagem a você, mãe querida!

Sei que, ao fazer-se Mãe, você decidiu com que todo o eixo da sua vida passasse a girar ao redor de nós… E não me lembro de um dia sequer em que você tenha nos preterido! A gente que é filho se acostuma com isso, não é? Chama-se renúncia, esse negar-se a si mesmo… Fingindo, por exemplo, não querer mais a comida, mesmo ainda com fome, para ver os filhos comerem até se empanturrar (até hoje! kkk)… Só posso agradecer-te, por tudo! E dizer que tenho tentando espalhar, na minha prática de pedagogo, um pouco da alegria do papai e do teu zelo infinito!… Nossa eterna gratidão! Um beijão, feliz Dias das Mães!

Reencontro de amigo

Reencontro de amigo
Que há muito eu não via
Curioso é o sentimento
Que me passa nesse dia

É saudade ali doendo,
Que sem perceber sentia,
Quanto tempo não o via?
Muitos meses, muitos dias!

Mas a gente vai vivendo
Vai lutando no agora
E os dias vão passando
Esquecemos do outrora…

Pois que deu-se o reencontro,
Por acaso, de repente.
E me veio uma saudade,
Que estava ali, latente!

Sentimento curioso
Era o que me acometia
Algo dúbio, paradoxo
De tristeza e de alegria

O resultado, não sei bem,
Pareceu-me nostalgia
Desse espaço confortável
Da relação que a gente tinha…

Um carinho, um aconchego,
Que magicamente se refaz
Bem igual antigamente
No nosso tempo de rapaz

Abriu-se, de dentro de mim
Um “eu” que há muito, não via
Guardado a sete chaves!
E que agora aparecia…

Doces horas que passaram
Quase que sem perceber
E no final, o mesmo abraço…!
Meu amigo, que bom te ver!

O segredo é saber surfar

Acho que um maiores segredos da vida é entender a “onda” e “surfar” sobre ela…

As ondas (no plural) são as situações da vida!…

Não dá pra brigar com elas!… (acho que gastamos muita energia com isso…)

É preciso ser flexível, se ajeitar a elas…

Tem onda que é fácil…

Mas tem onda que é brava!

Mas aí está o prazer, não é? Pegar uma grande onda… É o que busca um bom surfista!…

Equilibrar-se sobre a onda… Dançar com as águas… Como um bailarino!

Saber imprimir força, agir quando é necessário, intervir com seu “peso” aqui e ali…

Mas deixar-se levar, ao mesmo tempo… Entendendo-a… Tolerando seus solavancos… Respeitando a sua força…

Buscar o equilíbrio, enfim! Os dois: o com “e” minúsculo, pra não cair sobre as águas… E o Equilíbrio, com “e” maiúsculo, essa sintonia perfeita do Homem com a Natureza (com a Vida, afinal).

O velho

O peso dos velhos erros,

O homem-velho dentro de mim,

O senhor a quem ninguém dá nada,

Porque amedontra e angustia

 

O cínico, sarcástico

Sensualista e grosseiro,

Por onde passa, desequilibra

Não se envergonha, e dá asco.

 

Mas dentro de mim, também percebo,

A queda grande, a dor profunda,

Em densas trevas, o choro angustiante!

O arrependimento agudo.

 

A mãe de outrora vem correndo

Vem do alto, de suas conquistas de amor

Acolher e envolver o velho maltrapilho,

Seu filho que tanto amou!

 

Dentro de mim há essa marca,

Essa transformação profunda

Já não é mais o antigo velho

É menino agora, confuso.

 

A mãe sublime coordena, do Alto,

As provações que ele terá de passar

Delineando a Justiça

(Enxendo-se de Misericórdia)

Por compreender, mais que ninguém

Quem ele era.

 

Nossa Senhora, de quem é humilde serva,

Marca profundamente o rapaz.

Velhaco da antiga Igreja,

Trazia, por incrível que pareça,

A imagem impoluta da Virgem,

A quem orara, no angustiante momento de tristeza!

 

A Justiça, infalível, tortura-o em vidas amargas

Mas na pauta não se encontravam,

Os gestos carinhosos daqueles que não precisavam,

E, no entanto, o auxiliaram. E o ensinaram a amar.

 

Hoje, vejo em mim,

A doçura e a amizade

O coração sincero e a vontade de acertar.

 

Mas o velho homem

(ou velhos homens, porque são mais de um)

Caracterizam-me, ainda.

 

Vivo angustiosa crise,

Por me conhecer tão pouco!

 

Das marcas do passado, no entanto,

Uma apenas vale a pena,

Aquela forjada do amor

Do sublime reencontro

De mim para comigo mesmo

Na busca de minha divina essência!

Iminência

O outro é um mundo. Apaixonar-se é entender, malemale, algumas ilhas, às vezes um ou outra extensão de terra… O medo se envolver reside, um pouco, nessa “responsa”: o outro é complexo demais! São oceanos e continentes inexplorados, inclusive pelo próprio indivíduo… Vai encarar mermo?