Apolíticos

Quê isso, apolíticos? Professadores de uma religião do Deus Apolo?

Não.

Apolítico é aquele que é estranho a política.

Eu sou um deles.

O fato é que, durante os meus vinte anos de existência, eu nunca havia me indignado com esse meu total desconhecimento e participação política. Nestas eleições de 2010, com o tema colocado no ar (e violentamente gritado nos nossos ouvidos pelos barulhentos “O Marconi vai ganhar, vai ganhar, vai ganhar…”), me dispus a colocar o meu segura-chapéu para pensar e tentar entender um pouco sobre política.

Algumas idéias pré-construídas na minha mente são: os políticos são, em sua maioria, corruptos; a política cuida da saúde, educação, moradia e saneamento básico, mas que, por ser corrupta, não dá conta do recado; eu consigo viver muito bem, obrigado, sem me entender muito por política.

Há aproximadamente três anos, passei a dedicar-me mais à trabalhos voluntários com crianças e jovens, e tenho me sensibilizado com realidades diferentes das minhas e, ao mesmo tempo, admirado a força e a espontaneidade que consigo encontrar nos mais humildes.

O viés de voluntariado que assumi em minha vida nos últimos anos tem-me engrandecido muito, e com a política sendo novamente ventilada nestas eleições, parei para refletir e conclui, abismado: somente através da política pode-se resolver os grandes dramas materiais do povo brasileiro. Nossas atividades filantrópicas amenizam, e são santuários de experiências e alegrias para trabalhadores e beneficiários, mas uma transformação social, de verdade, só vai acontecer com uma atuação política séria e compromissada. É claro! Não tem outro jeito! Eles tem em mãos o poder que nós lhes outorgamos. Conduzem os gastos públicos.

Uma leitura clareou-me ainda mais a visão, para perspectivas que ainda não havia percebido: foi o Dossiê K, da lavra de Jorge Kajuru, que mostra como sua rádio de jornalismo investigativo goiana foi fechada pelo governo de Perillo por mais de 11 vezes, em menos de quatro anos. Com as denúncias na rádio, as perseguições políticas, percebi como a política goiana é muito mais suja e cruel do que eu imaginava. E como há uma promiscuidade entre política, empresariado, ruralistas e mídia, tudo girando em torno de um bem comum: dinheiro público. (leiam: http://www.tvkajuru.com/dossie-k/)

“O buraco é mais fundo”, conclui, transtornado. Há uma rede de corrupção e troca de favores que detém um poder gigantesco e oprime os poucos que se rebelem contra a situação. Não basta, portanto, para agir em nome de um ideal coletivo, ter apenas boa-vontade na política: é preciso ser sagaz, rápido e extremamente corajoso. Mas, isso eu tenho certeza, há bons políticos atuando, mesmo que vistam os mesmos ternos que os ladrões e trabalhem juntos no antro dos corruptos. Estão, ali, tal qual anjos de luz, ou melhor, para sermos menos poético mas ao mesmo tempo corretíssimos na definição: homens de bem.

As reflexões sobre política que vim fazendo (e estou, porque agora quero estar mais antenado neste assunto) me levou à conclusão de que todos somos apoliticos por causa da educação que recebemos. É claro! A escola deve ter como papel fundamental ensinar política. De que forma? Da melhor e mais certeira de todas: não divagando sobre política internacional; não palestrando sobre ciências políticas brasileiras; mas, pura e simplesmente: permitir com que os alunos reflitam sobre a realidade de seu bairro, identificando seus problemas, e promovendo soluções.

É claro! Já disse isso várias vezes neste blog: a educação não pode ficar entre quatro paredes. É uma crueldade pedagógica ensinar geografia no quadro-negro, enunciando as desigualdades sociais brasileiras e cobrando que os alunos as relacionem, na prova de papel que não servirá para nada. As crianças e jovens devem reunirem-se em grupos, coordenados pelos professores. Devem identificar os problemas e sair às ruas. Devem propor soluções. Devem visitar a Assembléia Legislativa e a Câmara de Vereadores. Devem escrever para prefeitos e governadores. Deve ter voz para poder decidir, conjuntamente ao diretor, professores e pais, os assuntos do colégio. As escolas tem de ter jornalzinhos para divulgar as idéias dos meninos. Deve receber a comunidade para debater assuntos políticos, escrever abaixo-assinados…

Eu sou apolítico, e sou o principal culpado disso, mas a educação que tive sempre teve como preocupação o “esclarecimento científico”, ou seja, o “saber pelo saber”, sem a aliança imprescindível da teoria com a prática; e sempre, sempre, a preocupação com o vestibular, com o curso superior e com a segurança profissional futura. Tudo muito egocentrado! Temos de ser mais descentralizados em nossos interesses. Defender coisas nossas e dos outros.

Ah! Vocês já devem estar pensando: “O João sempre acaba na educação!”. Mas não tem jeito, gente! A revolução está ali, nas luzes do esclarecimento, dentro daquele prédio passivo e manso que é o que é a escolinha, onde famílias tranquilam deixam seus filhos. A revolução do mundo, a força das luzes celestes, a purificação da sujeira, está ali, e acontecerá a partir dali, naquele prédio abençoado! (mas falem baixo, senão podem descobrir…)

A política é, essencialmente, o fazer pelo outro, pelo bem comum. Os homens vivem em bando, e aqueles mais aptos a conduzir o todo oferecem-se para guiar, com cuidado e coragem. Há muita gente que reúne ótimas características para entrar na política. Há muitos meninos e meninas das nossas escolas que seriam homens públicos maravilhosos, mas que descambam para a medicina, direito ou engenharia por imposição familiar ou social e tornam-se, de futuro, profissionais frustrados, porque sentem que vieram ao mundo para fazer mais…

Mudemos a educação…

E mudaremos até a política!

Já pensaram nisso?

Carta de Amor aos Vestibulandos

Que momento difícil é esse, meu Deus, o da preparação para o vestibular!

Esta carta é redigida por um recente ex-aluno, dirigida a todos os estudantes de ensino médio e cursinhos pré-vestibulares. Apesar de ser de minha autoria, creio seja inspirada pela fé em Maria Santíssima, do qual somos todos filhos adotivos…

A primeira verdade, necessária e bela, que devo dizer, é: muitas almas sensíveis compreendem exatamente o que estão passando. Espíritos dotados de um imenso amor à juventude, amor despretensioso, puro, tal qual corações maternos. Desveladamente, acompanham seus passos, assimilam suas dúvidas, angústias, medos, surtos, e fazem um esforço tremendo para lhes ajudarem, pela inspiração e transmissão de bons fluidos, silenciosamente, despercebidamente…

Não pensem que este cortejo de “anjos” (na verdade apenas homens e mulheres mais experientes na arte de amar) detém apenas um conhecimento superficial sobre o que se passa com “jovenzinhos pré-vestibulandos”. Não! Apesar de movidos tão-somente pelo coração, conhecem profundamente o âmago de todos aqueles que sofrem nas salas, nos livros, em casa. Compreendem as falhas tremendas na educação formal brasileira nos dias que correm, que prejudicam não só aos menos favorecidos, matriculados em escolas públicas de baixíssima qualidade, mas também aos alunos dos colégios mais caros da cidade, que não obstante ostentarem livros de qualidade, terem professores de alto nível e infra-estrutura escolar admirável, vivem infelizes sobrecarregados com o extenso currículo e pressionados pela expectativa alheia.

Quão cruel a realidade das salas de aula dos jovens! A juventude é momento mágico na vida da criatura: descobrem-se novos caminhos, brotam novos sentimentos. O sexo vem por de dentro como uma nova e poderosíssima força! A orientação sexual é naturalmente definida – e os dramas que decorrem das orientações não-convencionais não passam despercebidos destes Espíritos que servem ao amor de Maria. Porque, como se não bastasse ser vestibulando, ainda se é gay! “Até quando”, pensam serenamente, embora entristecidos, “a humanidade vai condenar o que a natureza tem de mais belo, que é a diversidade? Até quando farão sofrer essas pobres criaturas que não querem outra coisa senão… amar?”

Como um abraço dos Céus, os Espíritos amoráveis envolvem os muros da escola. Conhecem daqueles que enfrentam dificuldades nos relacionamentos dentro da família. O uniforme escolar, o cabelo arrumado e os livros debaixo do braço não escondem, deles, o que se passa no interior do peito dos jovens. Pelos colegas e professores, o disfarce pode até funcionar, mas não para essas criaturas celestes. Porque, para eles, não existe “apenas mais um”: cada um é um ser, tão importante e complexo como qualquer outro que seja da espécie humana. Os dramas nas famílias, as doenças incuráveis, os órfãos de pai ou mãe, os desentendimentos e discordâncias, tudo é do conhecimento deles, e sentido por eles. A timidez e solidão dos vindos do interior do estado; o desgosto daqueles que não tem o corpo que gostaria; a vaidade da bela menina ou do forte rapaz que guarda consigo  grandes inseguranças em relação a si próprio, embora quase ninguém as perceba…

Não sabem vocês como eles se entristecem quando percebem os caminhos loucos, as fugas terríveis, que muitos decidem por percorrer, chafurdando no álcool anestesiante, no cigarro e até mesmo nos entorpecentes. A realidade não é fácil, de fato. O caminho é pedregoso. Mas negar as dificuldades é revoltar-se contra aquilo que a vida pode nos oferecer. E eis aqui a segunda verdade dessa carta, que por ser de amor, não pode esconder o que é racional e lógico: temos de passar por isso.

Por mais que se tente, uma mudança na concepção escolar só será possível através de um movimento que transforme a maneira de olhar a própria educação. Não todos, mas muitos setores estratégicos da sociedade devem necessariamente modificarem seus conceitos sobre educação, convergindo num movimento que consiga, progressivamente, encerrar este ciclo de sofrimento dos jovens estudantes do fim do século XX e início do século XXI, para um novo ciclo, onde a educação corresponda às expectativas do novo milênio. Os jovens vestibulandos mal arranjam tempo para resolverem suas listas de exercícios, quanto mais para se inserirem nesse movimento! Isso é outro assunto, que exigiria muito tempo, energia e força.

Não. As coisas vão mudar, mas os frutos ainda estão verdes. Muita coisa precisa ainda amadurecer, no modo de sentir e agir dos empresários, das famílias, dos diretores, dos professores, dos políticos e dos próprios estudantes também. Infelizmente, essa é a segunda verdade, por mais revoltante que possa ser. A hora é a de enfrentar o que está aí, e não o de indignar-se e partir para a luta.

Não obstante, volto a dizer: somos compreendidos. Muito mais do que imaginamos. Há uma força-tarefa do outro lado que chora e se alegra conosco. Sabe aquela menina que você se apaixonou mas não revela? Sabe aquela angústia por não saber qual curso escolher, e ver as pessoas ao redor perguntando? Sabe aquela revolta por perceber a insensibilidade de diretores e professores para com vocês? Sabe aquele tédio por ver repetidas vezes matérias que não auxiliam em nada, não respondem nada? Sabe essa inveja que vemos brotar de dentro da gente (por mais que achemos horroroso), quando algum colega, amigo nosso, é melhor que a gente em alguma coisa? E, mais tarde, a raiva por estarmos inserido nesse sistema competitivo, essa seleção rigorosa que nos coloca uns frente a frente com outros, jovens tão parecidos conosco? E sabe aquela vontade de chorar ou gritar para que tudo fosse diferente!?

Nada disso é desconhecido deles.

Ah, meus amigos, se soubéssemos disso, se realmente entedêssemos essa verdade! Iriamos chorar como crianças! Porque, realmente, se pudessem, eles nos pegariam no colo e afagariam nossos cabelos, despejando todo o imenso amor que tem para conosco. Se pudessem, tirariam todas essas pedras do caminho. Mas não podem fazer isso, e nem devem. Temos de andar por nossas próprias pernas. Entender coisas que ainda não entendemos, que se passam dentro da gente. Trabalhar nossos sentimentos. Desenvolver resignação, paciência, tolerância. Temos o que merecemos, por mais triste que possa ser.

Mas há também uma terceira verdade, digna de nota, curiosíssima, que é: muitas pessoas agem por inspiração dessa faixa de tutela de outra dimensão. Sintam, através dos amigos, as palavras de carinho; através de alguns professores, o companheirismo; através de faxineiras, funcionários, um novo olhar sobre a vida; de algum diretor ou coordenador, os pesares pela educação em crise. Ouçam alguns pais revoltados pela dor de seus filhos vestibulandos; pedagogos notáveis e políticos sérios incentivando uma nova forma de pensar. Essa comunidade celeste intui e dissemina idéias superiores através das criaturas que estão ao lado de vocês! Parem para observar um pouquinho mais a vida, e receberão mensagens – talvez não respostas, mas apenas mensagens – de carinho, de entendimento, de “siga, que já está acabando!”, e “vai dar tudo certo”.

Ah, como seria maravilhosa uma educação que correspondessem aos nossos anseios! Onde pudéssemos aprender o que gostamos, sem exigências de conteúdos descabidos dos currículos atuais! Onde tudo fosse mais colorido e alegre, a arte permitida e desejável, os sentimentos estudados e valorizados! Onde a construção de amizades e o debate de idéias estivessem necessariamente inseridos no progama escolar. Se um gosta de administrar, aprenderia tal arte coordenando a cantina do colégio. Se outro gosta de biologia por causa da vida que nasce, em todos os sentidos, poderia plantar mudas e cuidar de animais dentro do colégio! Se outro quer é mexer com arte, que pudesse pintar os muros do colégio, cantar nos recreios, atuar nas aulas de literatura!

Meu Deus, a literatura! Que pudéssemos todos ler livros de nosso gosto, que nos fazem rir e pensar, e não livros determinados por professores bigodudos de faculdades. Imagine como seria bom uma escola assim, onde é gostoso estudar, onde os estudos correspondessem à nossa energia! Por que, de que adianta estudar os problemas do Brasil, nas aulas de geografia, se a duzentos metros dali há catadores de lixo e, não muito longe, jovens miseráveis? De que adianta estudar o globo e os problemas internacionais, se há tanta coisa pra fazer na nossa cidade mesmo? Se tivéssemos uma escola melhor, voltada para a vida, para uma transformação real, como tudo seria mais atraente!

Ela está para vir, gente! Está para vir! Essas idéias explosivas como fogos de artifício estão sendo disseminadas. Nada que é realmente bem feito acontece assim, de uma hora pra outra. Eles – essas criaturas celestes – trabalham para a maturação da sociedade. Sigamos caminhando, talvez não assim felizes, mas em paz, esperançosos. Se conselho fosse bom ninguém dava, vendia, mas quero vender (gratuitamente) os meus:

1) Procure, pelo menos durante algumas horas da semana, algum momento em que você possa encontrar-se com o lado espiritual da vida, seja numa igreja católica, evangélica, centro espírita, seicho-no-ie, ou mesmo uma “religião própria” sua, mas que lhe propicie um momento oracional, de meditação ou devocional a algo, alguma coisa ou algum sentimento. Isso vai fazer com que perceba, com mais nitidez, a primeira verdade;

2) Evite sentimentos de auto-piedade, por mais que o momento seja difícil. Lembre-se de que nada acontece por acaso ou capricho: se estamos inseridos numa realidade ruim, é porque faz-se necessário passarmos por ela. Essa é a segunda verdade. Não quero com isso incentivar a inércia e resignação passiva (como o fiel que não ajuda os mendigos porque acha que Deus quis que o mendigo sofresse assim), mas quero que vejam com racionalidade, como expus anteriormente, que há coisas que realmente não podemos modificar;

3) Sejam sensíveis às inflexões de carinho das pessoas ao seu redor. Se não podemos ver e sentir com nitidez os grandiosos espíritos celetes que nos acompanham os passos, temos, por outro lado, nossos bons amigos e familiares que, humanos mesmo, carne-e-osso, imperfeitos como somos todos, muitas vezes carregam verdadeiras mensagens celestes para nós (mesmo sem o saberem). Percebam a vida, as árvores, os pássaros, o céu, o vento; as pessoas que atravessam o nosso caminho; as flores pela calçada; sintam Deus na criação. Essa é a terceira verdade, e pela qual vale a pena viver.

Fiquem em paz.

Tudo passa.

A Escola

Estou explodindo em idéias, enquanto tomava banho. A água do chuveiro nos proporciona idéias maravilhosas (mas não vem ao caso agora).

Minhas idéias estão convergindo para este objetivo: construir uma escola cujo lema seja educar para a vida e para um mundo melhor.

Essa escola – maravilhosamente encantadora – vai possibilitar ao aluno seguir o rumo de sua vocação natural. Ou seja, os conhecimentos trabalhados nela vão se desdobrar em inúmeros, saindo das matérias tradicionais. Acho fundamental áreas como: Artes, Política, Direito, Administração, Educação… Assim, desde o início, o aluno já poderia pegar mais matérias daquelas que quer para a sua vida mesmo. O cara é vidrado em música, então vai estudar música. O cara gosta de política, então vai estudar política. Mas o mais importante: tudo, dentro dessa Escola, deve ser integrado. Por exemplo: o cara que estuda música vai tocar o seu instrumento nos recreios; o cara da política vai decidir os assuntos da Escola em assembléias. O aprendizado não se dará só nas salas de aula.

Cada canto nessa escola deve ser pedagógico. Os estudantes que prefiram administração, por exemplo, podem ficar encarregados de cuidar da cantina do colégio – e o lucro das vendas serem deles, por exemplo. Até mesmo os banheiros dessa Escola podem ensinar: os alunos é quem vão limpá-los, revezando em turnos semanais, aprendendo a dar valor a higiene e limpeza.

Não quero que seja uma escola que vire baderna, não… Todos os alunos devem apresentar tudo o que fizeram, “prestar contas”. A diferença é que eles estarão estudando aquilo que o coração deles pede, aquilo que sentem que estão no mundo para fazer.

Penso em hortas dentro da Escola; árvores, flores; tudo cuidado pelos próprios alunos. Cada um desses “ambientes de aprendizagem” pode ser coordenado por um professor titular da Escola: por exemplo, o de matemática ajuda os meninos da cantina; o de geografia, os que querem ser políticos; o de português, os que querem ser professores. Esses que querem ser professores podem ter a tarefa de auxiliar os meninos e meninas de séries inferiores, e até mesmo ajudar os professores a darem aulas ou elaborar provas.

Apesar de estar dividindo tudo em áreas (política, meio ambiente, administração, artes, direito…), elas não podem, DE MANEIRA ALGUMA, serem áreas estanques. Devem estar sempre interligadas. Por isso, o sanduíche natural da cantina pode ser preparado utilizando-se da cenoura e do alface da horta. A música pode ser tocada, suavemente, as tardes, para os alunos poderem estudar com mais afinco (já é comprovado cientificamente o poder da música nesse sentido). Grupos de várias áreas podem trabalhar conjuntamente para resolverem problemas do bairro, como falta de saneamento ou ausência de um ponto de ônibus no lugar.

E já vou chegando num ponto importantíssimo: a Escola não pode ser “acontecer” apenas entre quatro paredes. Ela deve ser uma mobilizadora do bairro em que está situada. Deve chamar pais para ajudar nas atividades (um pai que seja padeiro pode dar uma maozinha, ajudando gratuitamente a escola a fazer uma mini-panificadora; mães que saibam crochê podem ensinar essa atividade aos alunos interessados) e para decidir, conjuntamente aos filhos, o destino do colégio. Deve possuir ligações com os comerciantes do bairro, com as entidades não-governamentais do bairro; o próprio bairro, para essa Escola, é um ambiente pedagógico. O objetivo disso é fazer com que todos os estudantes tenham consciência de que podem ser vetores de transformação do mundo em que vivem (começando pelo bairro em que vivem).

O objetivo dessa Escola tem de ser a educação integral do ser humano. Por isso, tantas áreas. O estudante escolhe aquela que mais lhe toca o coração, mas ao mesmo tempo passará por todas, porque sendo ser-humano, tem todas essas necessidades, sejam elas físicas (prática de atividade esportiva), emocionais (atividades em grupo, construção de amizades), espirituais (busca de alguma espiritualidade ou ao menos de um sentido nobre para viver) e tantas outras.

Ou seja: a Escola que estou pensando não deve ser pensada apenas por um educador. Deve ser pensada por um psicólogo, um biólogo, um empresário. Deve ser plural. Deve trabalhar a pluralidade constantemente, porque ser plural nada mais é que ser ser humano.

Utopia? Impossível?

Acho que não. Nem vai ser uma escola tão cara. Não será exigido grandes tecnologias, computadores, laboratórios, salas estupendas, professores doutores. Será exigido, sim, colaboração ativa de todos os seus integrantes, desde o coordenador até o faxineiro, dos pais aos estudantes, e de todos do bairro. Acredito que deva ser uma escola modelo a ser implantada em todos os bairros de qualquer país subdesenvolvido. Ou seja: tem de ser um modelo estanque, com objetivos e idéias bem definidos, mas ao mesmo tempo tem de apresentar maleabilidade, para adatpar-se ao lugar onde será instalada: seja numa comunidade ribeirinha no interior da Amazônia, ou no sertão nordestino, ou no centro de São Paulo, e definir as suas áreas a partir da realidade do lugar. Obviamente, como disse antes, deve procurar parcerias e nunca atuar sozinha.

Puxa! Estou fervilhando em idéias. Nalgum outro post falamos mais sobre ela. Só percebam como é que essa escola consegue resolver um monte de problemas que hoje temos na educação: matérias estanques, poucos ambientes de aprendizado, escola apenas entre quatro paredes. Sempre pensei na escola como um lugar de transformação do bairro onde está inserida. Tem que ser assim!

Estou propondo um modelo de escola que revolucione o mundo! 🙂

A beleza em ser professor

Acho que há muita beleza em ser professor.

Aquele que ensina está, de início, movendo esforços interiores bem grandes para poder tentar transmitir ao outro aquilo que sabe, da melhor forma possível. Esse movimento, imperceptível para os de fora, é uma revolução dentro do professor. Ninguém nasce com o dom de ensinar…

O ato de transmitir algo não é tão simples quanto se parece. Não basta saber do assunto: é necessário saber transmiti-lo. Há professores-doutores cujas aulas são insuportáveis. Educação há quando necessariamente o aluno apreende alguma coisa. Isso, volto a frisar, não é tarefa fácil.

De modo que o professor também aprende, porque nessa tentativa de explicar algo, ele pode precisar percorrer inúmeros caminhos. Cada aluno é uma mente diferente, portanto vê o mundo de uma maneira muito própria e particular. Para que a mensagem do professor possa adentrar e ser assimilada nesse complexo ímpar, o professor deve “rebolar-se” todo para fazê-lo. Curiosamente, o professor vai descobrindo como é que o auno assimila as coisas, e a partir de então torna-se cada vez mais fácil ensiná-lo.

O professor aprende muito, porque vai associando as características das pessoas com a forma que elas tem, próprias, de entender o mundo, e assim vai filosofando sobre questões cruciais da existência humana. Um aluno não é simplesmente uma caixa vazia que deve ser preenchida. É uma caixa já cheia, que está sendo estimulada pelo professor. “Ninguém educa ninguém”, diria Paulo Freire. O professor dá um cutucão, provoca. Esse cutucão, como disse acima, deve percorrer o melhor caminho para chegar na cabeça do aluno. A partir daí, o processo de educação é todo dele. O que vai assimilar, como, o que isso vai motivá-lo, o que vai levar a refletir, com que outras coisas vai associar o que foi dito, se vai interpretar da maneira como o professor esperava…

Então, além dessa beleza em poder perceber como os outros vêem os seus mundos, o professor ainda conta com esse lance da imprevisibilidade, em relação aos seus alunos. Além de tudo, o ato de educar é, sobretudo, um ato de caridade.

Sim, porque não há coisa mais bela do que parar de escalar para ajudar os retardatários. O professor, de certo modo, pára de escalar, porque deixa de adquirir conhecimento só para si, e passa necessariamente a transmiti-lo aos outros. Então, ao invés de pesquisar mais sobre tal ou qual tema, se contenta com o que tem, e a partir desse conteúdo, vai refletir sobre a melhor forma de transmiti-lo aos outros, que nada sabem. Por vezes, repete a mesma aula para turmas e mais turmas. O professor está cansado de saber sobre o tema, mas os alunos estão vendo-o pela primeira vez.

O professor é um retardatário nato. Deixa os homens brilhantes seguirem os seus caminhos, lá na frente, e vai sozinho ali atrás, ensinando as coisas mais básicas. Ninguém seria nada sem o professor, todos passam por ele um dia. Passam e não voltam mais, e a glória de seus pupilos é deles, e não sua (de fato, a educação, como vimos, depende muito do aluno para existir).

Enfim…

Gosto desse assunto. Sou apaixonado pelo ensinar.

Voltarei a falar mais sobre isso… Agora, o sono me consome. Sâo quase duas da manhã de sexta-feira. Estou com tanta vontade de dormir que a sensação é semelhante aquele que tem muita vontade de cagar, mas não pode. Sabe, a sensação de que um peido, mísero de seja, pode fazê-lo borrar todo? Acho que se fechar os olhos durmo aqui no teclado mesmo…