Escondido por detrás de uma tela

Como dá aflição ser escritor de blog. Você escreve para o mundo inteiro e não sabe quem lê. Não sabe nem se alguém realmente lê alguma coisa.

Se lêem, não sabe se interpretaram corretamente. Fica ansioso por comentários que quase nunca vem. Fica apreensivo por ter dito coisas demais, para leitores que podem ser extremamente maliciosos ou tarados…

Estou exagerando, eu sei. Mas às vezes dá um desânimo em achar que estamos sendo uma banda sem público. Que estamos gritando a nossa arte num palco vazio, ouvindo os transeuntes do lado de fora cuidando da vida deles. Têm suas vidas, é claro. Não tem de perder tempo por aqui.

Tenho, na verdade, a aflição daquele que quer ser entendido. Todo escritor quer ser entendido, de alguma forma. Porque quando alguém entende o que expressamos, consegue entender aquilo que sentimos, e aquilo que somos verdadeiramente. E isso preenche-nos de uma alegria sublime, porque este entendimento é necessário para a construção de nossa própria identidade.

A construção de nossa própria identidade é trabalho coletivo, e não individual, como poderíamos pensar. Claro que o líder dessa empreitada será sempre nós próprios. Mas ninguém toca a música para si próprio. Ninguém vive para confundir. O artista quer ser compreendido. Por mais que alguns artistas “pop stars” possam ter a ousadia de negar tal verdade, tratando seus fãs com desprezo e superioridade, nada seríamos sem o olhar compassivo daquele que perde um pouco do seu tempo para nos visualizar.

É… Escritores que somos, podemos transparecer maior fortaleza interior para muitos. Na verdade, somos os mais frágeis. Precisamos escrever para sermos compreendidos, para que alguém nos entenda, porque somos uns desentendidos por natureza! Os artistas no palco são os menores e mais fracos, porque precisam de instrumentos e microfones ensurdecedores para fazerem-se entendidos pelo mundo! Não são como os da platéia, satisfeitos na sua posição, mais felizes com o que presenciaram, seguem no fim para a vida deles.

Acho que os escritores tem alguns sentimentos intratáveis de megalomania.

Graças a Deus, os leitores queridos, compadecem de nós, e vez ou outra, aturam nossas idéias.

Tempo perdido

Sinto que pulei muitas aulas. Que não aproveitei as encarnações passadas da melhor maneira. Sempre, estiveram permeadas por gozos inúteis e ócios não produtivos. Não sou um conhecedor de minhas vidas passadas, mas sinto que foi assim. Cada encarnação é preparada divinamente para que conquistemos, às vezes, apenas um sentimento, ou certas habilidades. Uma vez, é o aprendizado da paciência. Outra, do trabalho. Outra, da alegria. Às vezes temos a oportunidade de liderar e entrar na política. Outras, no campo da licenciatura. Algumas outras, viemos para ser simples homens de trabalho braçal, para acumularmos esse conhecimento tão precioso que é o do lidar com pequenos mecanismos lógicos manuais (mas, principalmente, ganhar humildade e resignação frente aos “patrões”, aos “grandes homens”).

Sinto-me como um aluno que aproveitou mal muitas aulas.

Avaliando tudo o que hoje escolhi para fazer, percebo o quanto sou inábil para muita coisa. Minha percepção acerca das trocas humanas, do dinheiro, das negociações, da habilidade com burocracias, é realmente péssima. Deus, em vidas passadas, provavelmente me concedera algum pequeno armazém ou uma empresa de médio porte para conduzi-la, mas acho que aproveitei tal encarnação para deliciar-me com sexo fácil, ócio, preguiça, acabando na penúria e prejudicando muita gente. Talvez tenha aprendido alguma coisa de música ou teatro, mas pouco (nisso, até que guardo um certo conhecimento, pois que tenho facilidade com piano e certa desinibição para interpretar personagens). Mas essa interação humana, essa postura de negociador, tão imprescindível para a condução sábia de uma instituição de caridade, por exemplo (porque, mesmo as creches ou abrigos não prescindem de bons administradores), me falta completamente. Fugi das conversas edificantes, da labuta boa junto com outros labutadores.

A minha grande timidez em relação as conversações humanas, a minha inabilidade para com as relações dos homens, me indica que num passado longínquo fui nobre, dedicado apenas aos desfrutes dessas coisas boas da vida, e por ser rico, esqueci do trabalho árduo, das relações sinceras de amizade. Poderia, ali, ter aprendido muito sobre política, sobre o fornecimento de emprego e boas condições para os empregadores, mas pensava só nas minhas loucuras de ocioso, de lascivo. E aprendi alguma coisa de dança ali (sim senhores, até que danço bem!), de fingir postura nobre, elegante, mas muito pouco sobre relação humana, sobre sinceridade…

Sei que prejudiquei muita gente por ter sido um orador religioso, numa vida passada. Talvez, por isso, a minha dificuldade imensa de aceitar, hoje, aqueles que falam sobre o Cristo de modo totalitário, parcial e fanatizado. Detesto quando pronunciam o nome de Deus e ditam ordens como se soubessem o que é certo e errado, e como se pudessem, sendo homens falíveis, mostrarem-se infalíveis somente por estarem no púlpito. Este sentimento, ao invés de revelar alguma pureza ou iluminação minha acerca do religioso, denota, ao revés, a minha dificuldade de aceitar a ignorância que, outro dia, eu também tinha (ainda tenho, quando me pego falando de Espiritismo para amigos e familiares meus). Sim, porque, de outro modo, não me importaria tanto com eles. Aliás, toda manifestação de ignorância e brutalidade em opiniões me dá ânsia, não consigo lidar direito com isso, e tendo a responder com a mesma brutalidade.

Graças a Deus, não sou um ser humano violento, agressivo. Já tenho certa evolução no campo da moralidade: paciência, benevolência, boa vontade principalmente. Cuidado, carinho. Claro, não sou muita coisa, mas, pelo menos, tenho vontade de mudar, de ser cada vez melhor. Se machuco meus companheiros de jornada, não é deliberadamente que o faço. Isto já é muito bom. Muita coisa, eu sinto que aprendi em encarnações de muita dor, doença e penúria. Valeu a pena. Algumas pessoinhas queridas de outros tempos, que nos sustentaram e sempre tentaram nos levar para o bom caminho, como mães dedicadas, pais bondosos, padres verdadeiros, são hoje os anjos que nos dirigem de modo mais próximo. Eu já construo amizades verdadeiras e já sou trabalhador no bem (tosco, mas insistente).

Falta-me muita coisa, infelizmente. O que me deixa triste é perceber o tanto de serviço que tenho para fazer (oportunidades de trabalhos de caridade, oportunidades diversas de faculdade, estágio, comissão de formatura, oportunidades de relacionamento humano), e o quanto sou inábil para tanta coisa, seja na técnica ou no campo do sentimento. Tenho certeza de que, se tivesse aproveitado bem as outras vidas, estaria com bem menos dificuldades.

Infelizmente, não podemos modificar o nosso passado. O que podemos fazer é modificar o futuro, através da conduta certa aqui no presente. Tenho em mim uma esperança no meu futuro. Acho que é o toque de carinho dos nossos maiores, que percebo e guardo. Somos pequeninos, viajantes desvairados de outros tempos, mas temos muita gente que acredita em nós (por mais que a gente mesmo desista de acreditar na gente). Fomos resgatados de furnas terríveis, regiões lamacentas do plano espiritual, por espíritos mais sábios que nós, mais sinceros no amor, há muitos anos já. Que compartilharam conosco experiências, que às vezes eram da nossa casa, mas que foram tomando rumos diferentes, mais espiritualizados. Hoje, são nossos mentores queridos, que nos conduzem e nos amam profundamente, e pelejam para que não saiamos do caminho reto.

Este é o meu desabafo. Não sei se os leitores partilham desta mesma tristeza minha, e ao mesmo tempo da alegria e fé. Na verdade, não sei nem se acreditam nisso que leram. O fato é, meus queridos, que temos de aproveitar bem essa vida. Não sou a pessoa ideal para dar conselhos, mas acho que desperdiçamos muitas oportunidades boas que nos aparecem, e esquecemos também de valorizar nossos pais, familiares e amigos. Viver intensamente, sabiamente, corajosamente, dando o melhor de nós, importando-nos mais com causas que transcendem as nossas necessidades egoísticas. Lutar por um mundo melhor. Sermos profissionais que saibam transformar o mundo. Há muito sofrimento e já ficamos parados demais.

É o melhor que podemos fazer, para que não cheguemos ao fim da vida sem esse terrível sentimento de “tempo perdido” que eu, jovem de 19 anos, já estou tendo. Os jovens “velhos”, que compartilham comigo deste sentimento de frustração, mesmo sem saberem ao certo o porquê, me entendem. Arregacemos as mangas para o trabalho, estudo, bom relacionamento, para esse sentimento de tristeza não tome nossos corações. E uma dica, para finalizar o texto: dediquem duas horas na semana em algum trabalho de caridade que mais tenham afinidade (crianças de creche, de orfanato; idosos em abrigos; jovens em mocidades; visita a presídios; sopão para mendigos; visita a hospitais para diálogo franco, ou para vestirem de palhaços…).

A minha cachaça!

“Todo mundo tem a sua cachaça” Álvaro Catelan

Todo mundo tem alguma válvula de escape para os problemas da vida. Como o professor mesmo disse, a gente tem que aprender a enganar a vida, para que ela possa ir passando, sem que tenha tanta dor. Enganar a vida, pegando só as coisas boas. Quando a coisa aperta, é só recorrer a cachaça, que não tem de ser necessariamente a bebida alcoólica.

Escrever é uma das minhas cachaças. Escrevo para desabafar, para aquietar meus desejos… Porque sou tão jovem, e queria tanto ter alguém para beijar e conversar, num relacionamento de namoro que tivesse, ao mesmo tempo, respeito e amizade. Mas como poderei isso, sendo como sou, tão tímido, tão medroso?

Somos um albergue, como diria Rubem Alves, cheio de nós ali dentro. Há, dentro de mim, um João professor, um João criançona, um João bem idoso… Mas há também um João jovem, que pensa como jovem, que acha que é forte como um jovem, mas que é um confuso bobão, como jovem mesmo. Imagine, esse João jovem está quase apaixonado por uma pessoa sem ter ao menos trocado algumas palavras com ela! Apaixona-se só pela estética? Ou será que, mesmo achando bonito, algo mais pode atrair dois jovens?

Não sei. Ser João jovem é difícil demais. Ademais, a oportunidade já passou. Tenho dentro de mim um João padre também. Esse senhor diz que Deus toma conta de tudo, que não há nada sem uma razão específica de ser, e que Maria de Nazaré cuida até mesmo de nossos menores anseios, porque ela é Mamãe do Céu que entende a todos os filhinhos. O João jovem confessa ao padre que não percebe nada disso, e que acha que Deus e Maria tem coisas mais importantes para se preocuparem. O padre diz que não, que Ela entende a nós, as nossas dificuldades, e que inclusive encaminha as pessoas certas para as nossas vidas.

Mas, nesse momento, João jovem já se recolhia, tristonho, ao seu quarto do albergue. O João padre, que não queria ficar falando sozinho, entrou para o seu quarto também – talvez para rezar um pouco. Ademais, outro João já estava querendo sair de seu quarto. O João idoso, sem espinhas ou hormônios, lento como uma tartaruga…

Esse idoso gosta de conversar, escrever, dar conselhos, e não entende muito dessas coisas de jovens.