Osama Bin Laden – Parte 2

A conclusão que cheguei, após mais de meia hora de reflexão, é a seguinte (não sei se concordam): Osama não era um psicopata, um indivíduo que gostava de sangue, que sentia prazer em causar dor. O perfil dele, na verdade, é o de alguém profundamente fanático em sua religião. A briga dele não era para conquistar poder político ou econômico: é a de fazer do Islamismo a única religião do globo, a Palestina como a terra santa do mundo, os costumes islãos os únicos aceitáveis, e a adoração divina a Alá a única possível.

Lendo a sua história, vemos que ele amava sua família e chorava quando sua mãe não estava bem. Tinha amizades verdadeiras, e por ser de família rica (seu pai teria sido o homem mais rico da Arábia Saudita, depois do rei), auxiliava os muçulmanos mais pobres em suas dificuldades. No entanto, desde criança, afinava-se com idéias de um radicalismo islâmico, sendo que o seu primeiro mentor teria sido um professor que organizava um grupo de estudos clandestino dentro da própria escola e estudava o Alcorão de modo mais fundamentalista (quase 80% da população islâmica não é radical e defende a coexistência pacífica das religiões e costumes do Globo, sabiam?). Ainda jovem, viajou para o Afeganistão e participou e financiou grupos de árabes e acampamentos de milícias armadas no combate aos invasores soviéticos. Quando adulto, mostrava um profundo respeito às regras de costumes islâmicas e exigia que sua família as respeitasse incondicionalmente, e fundou o grupo que hoje está entre os maiores grupos de islâmicos radicais do mundo: a Al Quaeda.

Então, acho que o primeiro ponto que temos de levar em conta ao tentar entender essa mente é a de não considerá-lo como um sujeito que se utilizava de uma legenda religiosa para aumentar o seu poder e dominação, num projeto egoístico. Não acredito que ele fosse como alguns pastores brasileiros que vemos por aí… Ele acreditava sinceramente naquilo que fazia. Ele, de fato, achava estar agindo em nome de Alá, promovendo uma guerra santa, a jihad, necessária para alcançar os fins religosos que ele tanto amava. Acreditava, portanto, num delírio (porque o fanatismo é delirante), que estaria fazendo um bem ao mundo. Por isso, teria dito que “Alá sabia que não queríamos fazer isso (derrubar as torres gêmeas) mas não havia outro jeito”.

O segundo ponto que temos de levar em conta, é a sua colossal inteligência e carisma. Conta a sua biografia que ele, mesmo tendo nascido rico, teria aumentado sua fortuna por sua habilidade empresarial. Conhecia os textos islâmicos com profundidade e era ouvido com respeito pelos seus discípulos. Era um líder carismático. De acordo com o líbio Noman Benotman, que foi radical e conheceu Osama, tendo posteriormente desistido do jihadismo, disse em entrevista a revista Veja que “Bin Laden era calmo, sorridente e aparentemente humilde. Era muito difícil contestá-lo em uma discussão, pela naturalidade no trato com as pessoas. Era o líder ideológio do grupo. Em sua teoria e comportamento, no entanto, estimulava o ódio ao Ocidente, e conseguia mobilizar radicais para atacar alvos distantes, onde eles nunca estiveram, contra pessoas desconhecidas”.

Um jornalista americano, que teria entrevistado o radical, contou a sua experiência no Fantástico, da Rede Globo. Disse que, guardando muito medo, foi ao encontro de um Osama cercado por muçulmanos com metralhadoras. Antes de dizer qualquer coisa, Bin Laden teria dito: “O senhor é muçulmano?”. O jornalista respondeu: “Eu sou jornalista. Vim em busca da verdade”. “Você busca a Verdade? Então é muçulmano”, conclui com um sorriso.

Em suma: o traço marcante desde homem era o fanatismo. Nem sua inteligência a livrou dela, muito pelo contrário: utilizou-a para solidificar seu fanatismo, com base em interpretação parcial dos textos do Corão. Digo parcial porque, não sei se sabiam, o Corão é um livro sagrado que prega a paz e a mansidão – como disse, só 20% da população muçulmana é jihadista. Esta parcela interpreta literalmente o Alcorão, que, em alguns pontos, de fato, conduz à violência (como a própria Bíblia Sagrada, se literalmente interpretada, pode conduzir o fiel a violência – há trechos no Levítico, por exemplo, que mobilizam os homens a destruição de cidades inteiras, incluindo mulheres e crianças!).

E o fanatismo é um traço da natureza humana, portanto, presente em todos nós, em maior ou menor grau. Se não ele, ao menos a intolerância é algo que todos nós possuímos, e essa é pressuposto para aquela. No Brasil, a intolerância se faz presente não apenas nas religiões – os evangélicos brasileiros, por exemplo, em boa parte, assumem postura bastante intolerante em relação aos demais cristãos – como também no futebol (vide torcidas organizadas, capazes de matar alguém por estar vestido camisa diferente da dele, como vemos aí nas notícias de jornal), nas diferenças socio-econômicas (pobre x rico), cultural-regionais (nordestinos, cariocas, sulistas…), nas diferenças de cor (negros, brancos…) gênero (homem x mulher) e orientação sexual (hetero X homossexual), e por aí vai…

Em geral, a intolerância representa uma falta de disposição do indivíduo em aceitar posturas, opiniões ou jeitos diferentes dos dele. Eu não sei o motivo pelo qual, por vezes, temos essa falta de disposição, mas creio que esteja relacionado numa deficiência ou insuficiência que por vezes temos em se autodeterminar como somos. Essa é a nossa grande meta: ser alguém. Parece-me que o sujeito intolerante tem dificuldade em respeitar as idéias dos outros porque, em sua cabeça, isso o diminui. Ele pensa que aceitar idéias contrárias faz-lhe menor, erroneamente, claro, porque cada um tem um colorido diferente mesmo, ninguém é melhor ou pior. Mas ele acha que sim, talvez porque falta-lhe amor próprio, postura para ser o que é – o sujeito depende muito da autodeterminação do outro para se autodeterminar. Acho que é por aí (mas o assunto é fascinante e muito complexo para ser assim resumido…).

Portanto, para resumir, sem concluir, só dizer que, infelizmente, de acordo com os especialistas políticos, a morte de Osama não representa o fim ao terrorismo e ao radicalismo religioso, porque a Al Quaeda pode agir sem ele, como já agia nestes últimos anos, e mais: porque a verdadeira guerra ao terror não é calar os intolerantes: é a batalha que cada um de nós devemos travar, diariamente, contra as nossas próprias intolerâncias…

Osama Bin Laden – Parte 1

Osama Bin Laden. O que mais me intrigava e me surpreendia neste sujeito, assassinado pelas forças especiais dos Estados Unidos na semana passada, era a sua expressão serena e, por que não dizer, dócil.

Fiquei uns 40 minutos refletindo na sacada da minha avó, após leitura exaustiva sobre sua vida, suas ações terroristas, a operação norte-americana e tudo o mais, sobre como poderia um sujeito desses assassinar mais de 3 mil pessoas e dizer “Alá sabia que não queremos isso, mas não havia outra saída”.