Ouvir o outro

As discussões políticas apaixonadas e desrespeitosas só fazem mal à política. O ódio e a raiva são antidemocráticos por si mesmos, pois o sujeito age negando o que o outro pensa e sente, não lhe dando ouvidos, não lhe dando chance alguma.

As manifestações agressivas são mais que antidemocráticas: são atos de desamor, pois ao negar o que o outro pensa e sente, nega-se o próprio ser humano que ali está, com seus propósitos, contradições, ideiais, história de vida, família…

O sujeito se nega a entender seu “irmão de espécie”, como se aquele não fosse também um ser humano, igual a ele. Se nega a conviver com o seu “irmão de terra”, ainda que a convivência seja uma fatalidade, pois ninguém poderá se mudar para Marte ou coisa do gênero.

Por isso eu penso que a boa luta política se faz através do diálogo, através da busca em encontrar o outro – ainda que, neste processo, também encontremos a nós mesmos, e percebamos as nossas diferenças em relação ao outro (talvez menores do que imaginemos, num primeiro momento).

Para finalizar, lembrei-me de Nelson Madela, que incentivou seu companheiro de lutas Mac Maharaj a aprender o aficâner, e ainda que este relutasse, dizendo “mas esta é a língua do opressor”, ele respondesse: “mas nós precisamos entender como eles pensam”, e quando este mesmo amigo o criticara por ter chamado de íntegro um chefe político racista, ele retrucou: “não importa o quanto somos inimigos, precisamos acreditar na integridade do outro homem” (trechos do documentário: https://www.youtube.com/watch?v=SzY8EnTakvw).

Apolíticos

Quê isso, apolíticos? Professadores de uma religião do Deus Apolo?

Não.

Apolítico é aquele que é estranho a política.

Eu sou um deles.

O fato é que, durante os meus vinte anos de existência, eu nunca havia me indignado com esse meu total desconhecimento e participação política. Nestas eleições de 2010, com o tema colocado no ar (e violentamente gritado nos nossos ouvidos pelos barulhentos “O Marconi vai ganhar, vai ganhar, vai ganhar…”), me dispus a colocar o meu segura-chapéu para pensar e tentar entender um pouco sobre política.

Algumas idéias pré-construídas na minha mente são: os políticos são, em sua maioria, corruptos; a política cuida da saúde, educação, moradia e saneamento básico, mas que, por ser corrupta, não dá conta do recado; eu consigo viver muito bem, obrigado, sem me entender muito por política.

Há aproximadamente três anos, passei a dedicar-me mais à trabalhos voluntários com crianças e jovens, e tenho me sensibilizado com realidades diferentes das minhas e, ao mesmo tempo, admirado a força e a espontaneidade que consigo encontrar nos mais humildes.

O viés de voluntariado que assumi em minha vida nos últimos anos tem-me engrandecido muito, e com a política sendo novamente ventilada nestas eleições, parei para refletir e conclui, abismado: somente através da política pode-se resolver os grandes dramas materiais do povo brasileiro. Nossas atividades filantrópicas amenizam, e são santuários de experiências e alegrias para trabalhadores e beneficiários, mas uma transformação social, de verdade, só vai acontecer com uma atuação política séria e compromissada. É claro! Não tem outro jeito! Eles tem em mãos o poder que nós lhes outorgamos. Conduzem os gastos públicos.

Uma leitura clareou-me ainda mais a visão, para perspectivas que ainda não havia percebido: foi o Dossiê K, da lavra de Jorge Kajuru, que mostra como sua rádio de jornalismo investigativo goiana foi fechada pelo governo de Perillo por mais de 11 vezes, em menos de quatro anos. Com as denúncias na rádio, as perseguições políticas, percebi como a política goiana é muito mais suja e cruel do que eu imaginava. E como há uma promiscuidade entre política, empresariado, ruralistas e mídia, tudo girando em torno de um bem comum: dinheiro público. (leiam: http://www.tvkajuru.com/dossie-k/)

“O buraco é mais fundo”, conclui, transtornado. Há uma rede de corrupção e troca de favores que detém um poder gigantesco e oprime os poucos que se rebelem contra a situação. Não basta, portanto, para agir em nome de um ideal coletivo, ter apenas boa-vontade na política: é preciso ser sagaz, rápido e extremamente corajoso. Mas, isso eu tenho certeza, há bons políticos atuando, mesmo que vistam os mesmos ternos que os ladrões e trabalhem juntos no antro dos corruptos. Estão, ali, tal qual anjos de luz, ou melhor, para sermos menos poético mas ao mesmo tempo corretíssimos na definição: homens de bem.

As reflexões sobre política que vim fazendo (e estou, porque agora quero estar mais antenado neste assunto) me levou à conclusão de que todos somos apoliticos por causa da educação que recebemos. É claro! A escola deve ter como papel fundamental ensinar política. De que forma? Da melhor e mais certeira de todas: não divagando sobre política internacional; não palestrando sobre ciências políticas brasileiras; mas, pura e simplesmente: permitir com que os alunos reflitam sobre a realidade de seu bairro, identificando seus problemas, e promovendo soluções.

É claro! Já disse isso várias vezes neste blog: a educação não pode ficar entre quatro paredes. É uma crueldade pedagógica ensinar geografia no quadro-negro, enunciando as desigualdades sociais brasileiras e cobrando que os alunos as relacionem, na prova de papel que não servirá para nada. As crianças e jovens devem reunirem-se em grupos, coordenados pelos professores. Devem identificar os problemas e sair às ruas. Devem propor soluções. Devem visitar a Assembléia Legislativa e a Câmara de Vereadores. Devem escrever para prefeitos e governadores. Deve ter voz para poder decidir, conjuntamente ao diretor, professores e pais, os assuntos do colégio. As escolas tem de ter jornalzinhos para divulgar as idéias dos meninos. Deve receber a comunidade para debater assuntos políticos, escrever abaixo-assinados…

Eu sou apolítico, e sou o principal culpado disso, mas a educação que tive sempre teve como preocupação o “esclarecimento científico”, ou seja, o “saber pelo saber”, sem a aliança imprescindível da teoria com a prática; e sempre, sempre, a preocupação com o vestibular, com o curso superior e com a segurança profissional futura. Tudo muito egocentrado! Temos de ser mais descentralizados em nossos interesses. Defender coisas nossas e dos outros.

Ah! Vocês já devem estar pensando: “O João sempre acaba na educação!”. Mas não tem jeito, gente! A revolução está ali, nas luzes do esclarecimento, dentro daquele prédio passivo e manso que é o que é a escolinha, onde famílias tranquilam deixam seus filhos. A revolução do mundo, a força das luzes celestes, a purificação da sujeira, está ali, e acontecerá a partir dali, naquele prédio abençoado! (mas falem baixo, senão podem descobrir…)

A política é, essencialmente, o fazer pelo outro, pelo bem comum. Os homens vivem em bando, e aqueles mais aptos a conduzir o todo oferecem-se para guiar, com cuidado e coragem. Há muita gente que reúne ótimas características para entrar na política. Há muitos meninos e meninas das nossas escolas que seriam homens públicos maravilhosos, mas que descambam para a medicina, direito ou engenharia por imposição familiar ou social e tornam-se, de futuro, profissionais frustrados, porque sentem que vieram ao mundo para fazer mais…

Mudemos a educação…

E mudaremos até a política!

Já pensaram nisso?