Tempo perdido

Sinto que pulei muitas aulas. Que não aproveitei as encarnações passadas da melhor maneira. Sempre, estiveram permeadas por gozos inúteis e ócios não produtivos. Não sou um conhecedor de minhas vidas passadas, mas sinto que foi assim. Cada encarnação é preparada divinamente para que conquistemos, às vezes, apenas um sentimento, ou certas habilidades. Uma vez, é o aprendizado da paciência. Outra, do trabalho. Outra, da alegria. Às vezes temos a oportunidade de liderar e entrar na política. Outras, no campo da licenciatura. Algumas outras, viemos para ser simples homens de trabalho braçal, para acumularmos esse conhecimento tão precioso que é o do lidar com pequenos mecanismos lógicos manuais (mas, principalmente, ganhar humildade e resignação frente aos “patrões”, aos “grandes homens”).

Sinto-me como um aluno que aproveitou mal muitas aulas.

Avaliando tudo o que hoje escolhi para fazer, percebo o quanto sou inábil para muita coisa. Minha percepção acerca das trocas humanas, do dinheiro, das negociações, da habilidade com burocracias, é realmente péssima. Deus, em vidas passadas, provavelmente me concedera algum pequeno armazém ou uma empresa de médio porte para conduzi-la, mas acho que aproveitei tal encarnação para deliciar-me com sexo fácil, ócio, preguiça, acabando na penúria e prejudicando muita gente. Talvez tenha aprendido alguma coisa de música ou teatro, mas pouco (nisso, até que guardo um certo conhecimento, pois que tenho facilidade com piano e certa desinibição para interpretar personagens). Mas essa interação humana, essa postura de negociador, tão imprescindível para a condução sábia de uma instituição de caridade, por exemplo (porque, mesmo as creches ou abrigos não prescindem de bons administradores), me falta completamente. Fugi das conversas edificantes, da labuta boa junto com outros labutadores.

A minha grande timidez em relação as conversações humanas, a minha inabilidade para com as relações dos homens, me indica que num passado longínquo fui nobre, dedicado apenas aos desfrutes dessas coisas boas da vida, e por ser rico, esqueci do trabalho árduo, das relações sinceras de amizade. Poderia, ali, ter aprendido muito sobre política, sobre o fornecimento de emprego e boas condições para os empregadores, mas pensava só nas minhas loucuras de ocioso, de lascivo. E aprendi alguma coisa de dança ali (sim senhores, até que danço bem!), de fingir postura nobre, elegante, mas muito pouco sobre relação humana, sobre sinceridade…

Sei que prejudiquei muita gente por ter sido um orador religioso, numa vida passada. Talvez, por isso, a minha dificuldade imensa de aceitar, hoje, aqueles que falam sobre o Cristo de modo totalitário, parcial e fanatizado. Detesto quando pronunciam o nome de Deus e ditam ordens como se soubessem o que é certo e errado, e como se pudessem, sendo homens falíveis, mostrarem-se infalíveis somente por estarem no púlpito. Este sentimento, ao invés de revelar alguma pureza ou iluminação minha acerca do religioso, denota, ao revés, a minha dificuldade de aceitar a ignorância que, outro dia, eu também tinha (ainda tenho, quando me pego falando de Espiritismo para amigos e familiares meus). Sim, porque, de outro modo, não me importaria tanto com eles. Aliás, toda manifestação de ignorância e brutalidade em opiniões me dá ânsia, não consigo lidar direito com isso, e tendo a responder com a mesma brutalidade.

Graças a Deus, não sou um ser humano violento, agressivo. Já tenho certa evolução no campo da moralidade: paciência, benevolência, boa vontade principalmente. Cuidado, carinho. Claro, não sou muita coisa, mas, pelo menos, tenho vontade de mudar, de ser cada vez melhor. Se machuco meus companheiros de jornada, não é deliberadamente que o faço. Isto já é muito bom. Muita coisa, eu sinto que aprendi em encarnações de muita dor, doença e penúria. Valeu a pena. Algumas pessoinhas queridas de outros tempos, que nos sustentaram e sempre tentaram nos levar para o bom caminho, como mães dedicadas, pais bondosos, padres verdadeiros, são hoje os anjos que nos dirigem de modo mais próximo. Eu já construo amizades verdadeiras e já sou trabalhador no bem (tosco, mas insistente).

Falta-me muita coisa, infelizmente. O que me deixa triste é perceber o tanto de serviço que tenho para fazer (oportunidades de trabalhos de caridade, oportunidades diversas de faculdade, estágio, comissão de formatura, oportunidades de relacionamento humano), e o quanto sou inábil para tanta coisa, seja na técnica ou no campo do sentimento. Tenho certeza de que, se tivesse aproveitado bem as outras vidas, estaria com bem menos dificuldades.

Infelizmente, não podemos modificar o nosso passado. O que podemos fazer é modificar o futuro, através da conduta certa aqui no presente. Tenho em mim uma esperança no meu futuro. Acho que é o toque de carinho dos nossos maiores, que percebo e guardo. Somos pequeninos, viajantes desvairados de outros tempos, mas temos muita gente que acredita em nós (por mais que a gente mesmo desista de acreditar na gente). Fomos resgatados de furnas terríveis, regiões lamacentas do plano espiritual, por espíritos mais sábios que nós, mais sinceros no amor, há muitos anos já. Que compartilharam conosco experiências, que às vezes eram da nossa casa, mas que foram tomando rumos diferentes, mais espiritualizados. Hoje, são nossos mentores queridos, que nos conduzem e nos amam profundamente, e pelejam para que não saiamos do caminho reto.

Este é o meu desabafo. Não sei se os leitores partilham desta mesma tristeza minha, e ao mesmo tempo da alegria e fé. Na verdade, não sei nem se acreditam nisso que leram. O fato é, meus queridos, que temos de aproveitar bem essa vida. Não sou a pessoa ideal para dar conselhos, mas acho que desperdiçamos muitas oportunidades boas que nos aparecem, e esquecemos também de valorizar nossos pais, familiares e amigos. Viver intensamente, sabiamente, corajosamente, dando o melhor de nós, importando-nos mais com causas que transcendem as nossas necessidades egoísticas. Lutar por um mundo melhor. Sermos profissionais que saibam transformar o mundo. Há muito sofrimento e já ficamos parados demais.

É o melhor que podemos fazer, para que não cheguemos ao fim da vida sem esse terrível sentimento de “tempo perdido” que eu, jovem de 19 anos, já estou tendo. Os jovens “velhos”, que compartilham comigo deste sentimento de frustração, mesmo sem saberem ao certo o porquê, me entendem. Arregacemos as mangas para o trabalho, estudo, bom relacionamento, para esse sentimento de tristeza não tome nossos corações. E uma dica, para finalizar o texto: dediquem duas horas na semana em algum trabalho de caridade que mais tenham afinidade (crianças de creche, de orfanato; idosos em abrigos; jovens em mocidades; visita a presídios; sopão para mendigos; visita a hospitais para diálogo franco, ou para vestirem de palhaços…).

2010

Poxa vida! Como o ano de 2009 foi cheio de coisas! Foi realmente impressionante… A vida se movimenta numa velocidade estrondosa. A cada novo dia novas experiências pululam na nossa frente (mesmo que não a procuremos, ou até que a evitemos!). Tive, neste ano, experiências maravilhosas. Algumas provas bastante difíceis, para a minha perspectiva e capacidade de dimensionar. Outras descobertas ótimas. Atividades produtivas. Descobri mutias coisas sobre a minha própria personalidade – e me decepcionei (e decepciono), com minha pequenez.

Fiz, no fim de 2008, uma lista de coisas que queria fazer em 2009. Muitas aconteceram, e outras que eu não previa também:

1) As atividades na creche continuaram (os pimpolhos me ensinam a cada novo dia que eu lá apareço, com meu livrinho de histórias. Agradeço tanto àqueles meninos e meninas, pelo carinho que eles tem em relação a mim! Ás vezes, acho que não mereço tanto amor assim. Mas, não quero ser falso modesto: eu também os procurei, por livre vontade, me disciplinei para encontrá-los uma vez por semana, e os valorizo como seres humanos. Mereço-os sim!). Acho que aquela creche foi uma das maiores conquistas da minha vida. Descobri o meu lado carinhoso, alegre, infantil, ao mesmo tempo paternal, e de educador, e de cuidador. Enfim: as crianças revelaram em mim aquilo que há de mais belo, dentro dessa imundície toda – é verdade, sou cheio de defeitos, e não quero parecer falso modesto quando falo, sou um cara realmente cheio de defeitos.

2) O aproveitamento de tempo com meus avós (gostaria de ter aproveitado um tanto mais com os por parte de mãe, vou fazer isso ano que vem). O receituário homeopático do meu avô continua sendo o seu trabalho de caridade aqui na Terra, e agradeço-o a oportundiade de estar junto à ele. Além de pegar garrafas, tive a oportunidade de palestrar lá dentro, e toda vez que faço isso, o padre velho do meu albergue (já disse no post anterior que sou um albergue) sai do seu quarto. Tenho de me disciplinar par a não ser severo demais na “pregação” – quem sou eu para exigir comportamento de quem quer que seja?

3) A nossa Mocidade Espírita continua – simples, coordenada por jovens bons e inexperientes, com crianças e jovens de bairro modesto -, na minha perspectiva, mais brilhante e gostosa de se participar. Enfrentamos dificuldades imensas – não é tão fácil controlar crianças e jovens como se parece. Mas descobrimos em nós um lado de paternidade, maternidade e professor que nunca saberíamos possuir. E, como ali falamos de Deus, Jesus e coisas espirituais (além de refletirmos sobre a vida e suas facetas), descobri que minha fé é muito menor do que gostaria. Na teoria, sei muita coisa sobre esse moço Jesus. Na prática, ainda me falta ter fé.

4) O culto no evangelho está definitivamente implantando na nossa casa, e tem trazido bons momentos de conversação e aprendizado. Descobri um pai, mãe e irmão muito mais espiritualizados do que imaginava (de fato, estou percebendo que, lá em casa, sou o espírito mais endividado, hehehe… Talvez, por isso, o mais animado para fazer trabalhos de caridade). Por outro lado, o meu culto individual diário, que planejei realizar todas as manhãs, tem funcionado de modo “tosco”, porque ainda estou longe de me acostumar com preces e meditações, mas tenho tentado, e isso já é um começo. Não quero de punir demais por minhas dificuldades interiores.

5) O teatro nas creches funcionou, foi um sucesso! Tive a oportunidade de fazer a música da peça. Conhecemos novos lugares. Encontrei-me de novo com o Espírito de Luz encarnado chamado Mônica Serpa (tá, tudo bem, não diria de Luz, mas com certeza bastante avançado, uma senhora sensível e de uma força interior incrível, escondida na carne como uma simples professora de teatro de um colégio em Goiânia). Percebi como ainda sou inexperiente em relação a certos sentimentos de querer outra pessoa ao meu lado (não quero falar sobre essas coisas aqui no blog, porque são muito pessoais). Mas quero que saibam que o João jovem do albergue é, talvez, o mais pequeno, inexperiente, infantil, bobão, de todos os inquilinos.

6) Pude fortalecer laços de amizade, criar outros. Não é bom citar nomes assim na internet, mas acho que posso citar alguns, pelo menos aqueles que aparecem por aqui. Paula Caldas, com certeza, foi uma alegria imensa poder revê-la. Pudemos conversar por dois ou três encontros, e é uma amiga formidável, de uma introspecção, sabedoria, e ao mesmo tempo de uma alegria e até, por que não, infantilidade?, que eu admiro e aprecio. Aberta a teorias e opiniões diversas. Uma grande amiga. Muito parecida comigo. Tomara que ano que vem possamos nos reencontrar mais vezes (embora não saibamos como a vida vai conduzindo as coisas…). A Gabriela, pela mansidão, paciência, alegria interior (ano que vem, temos muita coisa boa a fazer, heim!). A Raíssa, pela amizade e força, uma menina cheia de motivação interior para fazer caridade, bastante criança e inexperiente se mostra, às vezes; outras, de uma experiência e conselhos formidáveis. A Cíntia, uma flor em pessoa, uma verdadeira servidora de Maria de Nazaré na Terra (não estou exagerando, conheçam ela para ver…). A Norminha, que eu já conhecia e, durante os últimos meses, pude conhecer mais ainda (e descobrir como eu a desconhecia! – descobri também como valorizo pouco certas pessoas). Ao André, amigo também, parece que de longa data, extremamente parecido com meu irmão (ele não sabe disso, hehehe), de uma alegria e aceitação incomparáveis.

Vários outros. Acho que não deveria ter citado esses nomes, porque senão esqueço de outros e posso ser considerado injusto. Meu irmão, companheiro de caminhada, que descubro ser cada vez mais um irmão querido de muitos anos, de outras vidas, muito provavelmente. Um ser humano muito mais bondoso e sensível do que parece. Quase um filho querido… Sua namorada, encantadora, alegre, também de uma força que eu desconhecia, nem imaginava ter.

Muitos outros, muitos outros, se eu escrever sobre todos o texto vai ficar mais enfadonho do que já está.

7) A minha percepção em relação a mediunidade está evoluindo, graças a Deus. Posso ser julgado louco, mas estamos, todos nós, envoltos na psicosfera terrena, e inumeráveis espíritos nos seguem, sugerem-nos pensamentos, todos os dias, todas as horas. Para aqueles que possuem uma mediunidade um pouco mais ostensiva, como eu, tal fato é uma prova por si só, e nos exige um equilíbrio mental que estou longe de possuir (para maiores detalhes, se interessarem, estudem a Doutrina Espírita!). Mas estou conseguindo perceber quando o pensamento é meu, e quando não é; quando estou sendo sugerido, e quando não. Sentimentos de solidão, de tristeza aparente; outros de alegria, amor e fé completamentes fora do meu padrão habitual… Percebo muito pouco, mas estou percebendo. As reuniões no Centro tem me ajudado muito, além de eu poder, lá, utilizar essa ferramenta para fazer o bem.

Receei escrever este item 7 neste post, mas o escrevo. Talvez, alguns leitores passem por inconvenientes por serem médiuns sem o saberem. Desse modo, podemos conversar um pouco mais sobre o assunto, em particular. A mediunidade não deveria ser tratada como paranormalidade. Nada neste Universo é paranormal. Tudo é criação de Deus. Tudo está dentro da “normalidade”, tudo é “natural”, por ser tudo produto de Deus. Aquilo que não conhecemos é que é paranormal. Frases como “Isso não é de Deus!” ou “Isso é coisa do Diabo!” são extremamente irracionais. Tudo é de Deus, até o Diabo é criação de Deus, para aqueles que acreditam nele (eu não acredito, mas aqueles que acreditam deveriam ter um pouco de lógica). Deste modo, sugiro que todos estudem as coisas antes de emitir opiniões a respeito. E estude sem concepções íntimas de verdades. Todo estudo deve ser livre de pré-conceitos – embora, infelizmente, não consigamos fazê-lo.

Para 2010, peço a Deus que eu consiga, primeiro, perceber as lições. Digo isso porque a cada minuto somos surpreendidos com acontecimentos que carregam, em si, uma lição, algo que temos de aprender. Então, a primeira coisa a ser feita é perceber o que é que eu tenho de aprender. Isso exige de mim muito conhecimento sobre eu próprio, sobre o que eu ainda tenho de aprender.

Em segundo lugar, peço a Deus que não tenha dó de mim. Pegue pesado, pode mandar daí de cima, que eu tento aqui, da minha maneira! Tudo é para o meu bem mesmo. Meu desejo profundo é de adquirir a paz interior, a sabedoria, a sensibilidade, a fé. Mas isso requer muito exercício, muita atividade, muita superação, muito peso pesado! Mande ver, Deus!

Em terceiro lugar, peço que neste novo ano eu possa ter muita força interior. Sei que não carregamos fardos mais pesados do que podemos suportar, mas às vezes (muitas vezes) achamos que não vamos conseguir. Sou um jovem cheio de dúvidas, apesar de ter algumas certezas. Que eu possa ter força para continuar seguindo, batalhando contra minhas más tendências, respeitando e entendendo o próximo, sendo mais fraternal. Que nossos trabalhos de caridade que estamos teorizando possam acontecer, na prática. Peço muito por todos eles. Não me sinto apto para nenhum deles, mas acho que, se eu fosse esperar tais aptidões, não agiria nunca. O bom é agir sem saber e ir aprendendo, com muita boa vontade e humildade. Peço que todos eles dêem certo, que possamos realmente fazer algo de útil.

Em quarto lugar, peço a Deus e ao Padre Damião pela creche, e trabalho para poder reerguê-la. Quero fazer de tudo que está em meu alcance para poder ajudar. Ela não pode cair…

Em quinto lugar, peço a Deus para a felicidade de todos. Que os seus planos traçados para o ano que vem possam ser realizados (claro, eles tem de saber pedir coisas boas). Que sejam felizes, apesar das tristezas. Que aproveitem os seres humanos que os acompanham, pois esses laços de amor e carinho são o refresco divino para a caminhada árdua.

Enfim, um ótimo ano 2010 para todos nós!

Vamos embarcar nesse navio grande chamado esperança, que vem das estrelas na noite de hoje! Vamos estar juntos desejando dias melhores! Embarquemos, sintamos as ondas de gratidão pelo ontem, e de esperança pelo amanhã! Olhemos para os marujos ao nosso lado: são nossos companheiros de jornada! Que possamos sentir a luz da paz em nossos corações, luz branca como nossas camisas… E vejamos quem está no leme do barco!!! Quem sempre esteve!!!

Entremos nessa viagem… E até amanhã! 🙂