A senhora de cabelos brancos e o senhor da poltrona reclinável

Minha avó. Não a conheci no seu auge. Nem me avô. Quando os conheci, já eram – e são até hoje, porque ainda são vivos – de cabelos branquinhos e bastante dóceis. São velhinhos…

Meu avô, eternamente sentado na sua poltrona reclinável, no meio da sala, rindo e fazendo suas piadas simples. Minha avó, risonha, mais silenciosa, que parece adorar quando sua casa se enche da família: ela observa uma conversa, e outra, e sorri, e em geral não participa. Aos domingos, enquanto meu vô dorme profundamente, após almoçar às 11:00 da manhã, minha vó vê seus netos conversando sobre Harry Potter, RPG, cinema, essas coisas da modernidade; vê as noras, genros, filhos e filhas falando sobre as correrias de suas vidas, problemas, lances interessantes, oportunidades, crescimento… Olha e não participa de nenhuma delas: apenas acha bom todos ali, em sua casa. Suas conversas são menos importantes que suas presenças.

Dizem que era uma mulher linda, antigamente. De porte imponente, cabelos castanhos de penteado sedutor. Meu avô, um homem resoluto, de ombros largos, altivo, cabelos pretos, grande médico, de memória infalível.

Não os conheci assim.

Acho que a magia de netos e avós se encontra aí: são duas pontas que se unem, o início de uma vida e o fim de outra. Nem um nem outro vão se conhecer em suas glórias: uns porque ainda não são, planejam ser; outros, porque já foram, não são mais.

De qualquer forma, parece que há algo de muito belo neles. Apesar de tudo o que falta, a essência do ser se encontra mais visível, na criança e no velho: há mais sinceridade e simplicidade. Os gostos e desgostos de todos eles são bem visíveis. Não sabem esconder. Inclusive, as pessoas em geral entendem e toleram: a criança vai chorar quando não gosta de algo, e o velho vai reclamar; a criança vai errar, e dirão “É criança ainda!”, o velho vai errar, e dirão “É velho, deixe-o agir assim!”. A condição de criança ou velho já é uma justificativa por si só para seus atos, que seriam intoleráveis caso fossem “gente normal”. Para fazer humor: são desdentados, não sabem andar e fazem xixi na roupa!

A verdade é que eles não tem máscaras. As crianças porque ainda não sabem usá-las (ainda…); e os idosos porque já se cansaram delas.

Talvez por isso, gostem tanto uns dos outros, avós e netos. Eles trocam, silenciosamente, uma compreensão que ultrapassa a compreensão que os adultos tem dos dois.